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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Microsoft em apuros

A Microsoft está a ser acusada de racismo depois de ter apagado a cabeça de um homem negro numa imagem publicitária, substituindo-a por uma cara branca. O anúncio foi retirado da Internet, mas continua a ser alvo de chacota em diversos blogues. (foto de antes).
A Microsoft pediu esta quarta-feira desculpa pela manipulação digital de uma imagem num anúncio aos seus produtos. Em causa está o corte do rosto de um homem negro, substituido pela cara de um homem branco.
O truque foi posto a nu uma vez que a imagem original aparecia no site norte-americano da empresa, ao mesmo tempo que a imagem alterada era visível no site polaco da Microsoft.
Para piorar o embaraço, a mão negra do homem apagado na versão polaca ainda era visível apesar da eliminação da cara.
Enquanto a Microsoft promete “investigar” o incidente, os blogues estão inundados de comentários furiosos ou até divertidos sobre o flop de relações públicas da gigante norte-americana. (foto de depois).
“Acho que quiseram agradar a todos os públicos ao deixar a mão negra e a cara branca”, lia-se no Photoshop's Disasters. “Não há negros na Polónia”, alguém dizia, tentando encontrar uma justificação para o acto duvidoso.
Por fim, até a imagem de um portátil branco deixa dúvidas aos bloguistas, que a consideram uma referência involuntária à rival Apple. Em resumo, é uma lição do que não fazer em publicidade no século XXI.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Frescura ainda em pânico

Nas residências em viviam as vítimas, o clima de luto ainda está bem patente. Próximo ao local onde os oito jovens foram obrigados a deitar antes de serem baleados ainda se encontra uma parede cheia de buracos causados pelas balas que perfuraram os seus corpos.
De acordo com os moradores, nem a pintura feita nas paredes da residência onde os jovens estavam em ambiente festivo antes do infortúnio consegue apagar a tristeza em que se encontram até hoje. A síndrome do medo que se apossou da população é tanta que ninguém aceita permanecer até altas horas da noite naquele local, com medo de voltarem a ser vítimas de “assassínios misteriosos”.
Ao se aperceber da nossa presença em sua casa, Madalena Miguel, mãe do malogrado Fábio Caricoco, 21 anos, não conseguiu conter a dor que se apossou dela e indicou-nos o seu filho Leandro Caricoco para falar a nossa reportagem. “Desde que o meu filho morreu eu não consigo dormir; posso ter sono, mas quando vou deitar na cama só fico a pensar no meu filho”, disparou.
Leandro Caricoco recordou que no momento em que aconteceu o massacre, por volta das 19 horas de quarta-feira 23 de Julho de 2008, encontrava-se em casa a se preparar para uma prova e ao ouvir os disparos largou os cadernos para refugiar-se no quarto de uma tia. Na altura em que tudo aconteceu, os dois irmãos encontravam-se a fazer o último ano do curso médio de Ciências Jurídicas e Económicas no Colégio Duvero, no qual eram colegas de turma.
“Não sabemos explicar o que esteve na base daquele acidente. A única coisa que sei é que os disparos foram tantos que ninguém conseguiu sair para acudi-los”, frisou, acrescentando de seguida que uma das vítimas chegou a relatar antes de perecer que foram os polícias da nona esquadra que praticaram tais actos, citando apenas os nomes dos agentes Júlio e Micha.
O nosso interlocutor relatou que o malogrado Jhonson Van-Dúnem mencionou antes de morrer o nome destes dois agentes porque eram os únicos que não tinham os rostos cobertos com máscaras e que frequentavam aquele local onde trabalhavam à paisana. Depois do infortúnio, desapareceram daquele município.
Bernardo João Manuel, pai do jovem Fernando Manuel, outra vítima, contou que foi intimado a comparecer na Direcção Provincial de Investigação Criminal (DPIC) 15 dias depois do incidente e que de lá para cá tomou apenas conhecimento, através dos autos, que os supostos assassinos encontram-se em liberdade.
Por outro lado, disse que tomou conhecimento através da população que dois dos agentes que estiveram envolvidos no assassinato residiam naquele município, mas que após o “massacre” desapareceram sem deixar rastro.
“Os dois indivíduos que a população diz conhecer frequentavam este município só que nós não conhecemos em que zona de concreto é que eles viviam”. Até a data da sua morte, o jovem Fernando Manuel frequentava o ensino médio num colégio localizado na zona do Benfica e não deixou mulher nem filho.

Testemunhas foram notificadas
Felismina Pedro, mãe do jovem Elias Pedro, de 21 anos, revelou que algumas testemunhas oculares já receberam a notificação para comparecerem em Tribunal como declarantes. “A morte do meu filho deixou a família abalada e até agora ainda não consegui recuperar desta perda. Não consigo nem ir fazer a vida. Ele deixou uma mulher e uma filha que está agora com dois anos”, explica.
Devido o estado emocional em que se encontra a dona Felismina, os familiares retiraram todas as imagens do jovem que se encontrava pela casa e atribuíram ao seu irmão a responsabilidade de acompanhar o caso.
“A minha neta quando sai a rua, qualquer pessoa que ela vê trata logo de papá porque esta ansiosa em conhecer quem é realmente o seu pai”. Ao transportarem para o local onde decorria a entrevista o retrato do jovem, instalou-se um clima de óbito em casa de Felismina Pedro que chorava em companhia da sua irmã.
A entrevista prosseguiu com a nossa interlocutora a manifestar-se bastante esperançosa que o julgamento será realizado ainda este mês, conforme anunciaram as autoridades, e que “será digno como a Lei vigente no nosso país, porque cá se faz cá se paga”.
A mãe de Elias Pedro referiu que não meteria a mão no fogo pelo seu filho por não conhecer concretamente os caminhos por onde ele andava, mas que se as autoridades policiais consideravam-no como sendo delinquente deveriam levá-los à cadeia e depois julga-lo de forma justa.
“Eu não vou pôr a minha mão do fogo dizendo que o meu filho não era delinquente, mas tenho a minha mente tranquila que não era, e se as autoridades sabiam o contrário deviam levá-lo as barras da justiça e não matar-lhe a rajada conforme fizeram”.
A nossa interlocutora descreveu com bastante tristeza os locais onde o seu filho foi baleado, dizendo que “para matar o ser humano um tiro é suficiente. No meu filho, por exemplo, partiram-lhe os dois membros superiores e inferiores, deram-lhe um tiro na barriga e outro na cabeça, onde a bala acabou por ficar encravada”.
O Tribuna da Kianda tentou contactar as famílias de todos os cidadãos que morreram no “massacre da Frescura”, mas não foi possível porque alguns deles não se encontravam no local, ao passo que outros mudaram de residência.

Pais seguem o filho
A morte do jovem Jhonson Van-Dúnem, 22 anos, na zona Frescura, foi o ponto de partida para outros desaparecimentos físicos no seio daquela família que vive no meio do município do Sambizanga.
Segundo Cristina Van-Dúnem, tia de Jhonson, quatro meses após a morte deste jovem, a sua mãe Antónia Joaquim Van-Dúnem, 47 anos, não resistiu a perda e acabou por morrer com um ataque cardíaco.
Por ter sido uma das pessoas que acompanhou de perto a morte dos jovens e solicitou a ajuda dos vizinhos logo após os disparos, mesmo sem saber que naquele meio estava o seu filho, Antónia Van-Dúnem foi intimada na altura da constituição do processo a prestar declarações.
“Depois de ouvir os tiros ela saiu para ir ver o que se passava e ao ver os cadáveres deitados no chão começou a gritar pedindo socorro. Quando eu saí para ver o que se passava encontrei-a a gritar mesmo sem saber que o seu filho estava naquele meio”, explicou.
Contrariamente aos demais jovens que morreram no local dos disparos, Jhonsom morreu por volta das 23 horas no hospital. A tia lembrou que durante o tempo que esteve em vida, a sua irmã procurou acompanhar de perto as investigações policiais e ia periodicamente a esquadra para se inteirar dos processos de modos que o mesmo não caísse no esquecimento.
Cristina Van-Dúnem contou que o seu ente querido deixou duas mulheres, das quais uma tinha uma filha de dois anos e a outra estava concebida de seis meses, dando à luz a um rapaz. “Ele fez 22 anos seis dias antes de ser assassinado e estava a preparar-se para fazer o pedido das suas duas mulheres”, explicou.
Jhonsom Van-Dúnem nasceu no Sambizanga, mas morava com a sua mãe no município de Cacuaco, onde trabalhava numa indústria pesqueira. “Naquele dia eles vieram simplesmente visitar os seus parentes que moram aqui e pretendiam regressar no mesmo dia”, explicou Cristina Van-Dúnem, apontando para a avó do malogrado que tinha sido uma das beneficiadas da visita.
Como o azar não vem só, o dia 31 de Junho ficou registado no calendário desta família com a morte do pai de Jhonsom, Simão André, 54 anos, que, segundo a nossa interlocutora, não conseguiu resistir a perda do filho e da mulher e faleceu também de ataque cardíaco.
Para além da dor causada pela perda dos seus ente-queridos, Cristina Van-Dúnem contou que neste momento está a enfrentar inúmeras dificuldades em ajudar as mulheres e as duas crianças que ficaram órfãs de pai devido este infausto acidente.
“Aproveito para pedir as autoridades que nos ajudem não só a resolverem esse caso, como também a criarmos essas crianças, tendo em conta que as mesmas não têm culpa de o pai ter sido assassinado por presumíveis agentes da Polícia Nacional”.
Contactado pelo Tribuna da Kianda, o porta-voz do comando provincial de Luanda, Nestor Gobel, recusou-se a tecer qualquer comentário sobre o assunto alegando que deveríamos enviar antecipadamente uma carta a sua instituição solicitando informações acerca do assunto.

Conferência do 80º Aniversário do Nacionalista Angolano Mário Pinto de Andrade


A Universidade Lusíada de Angola realizará esta sexta-feira, 21, uma conferência para assinalar o 80º aniversário do nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade. A actividade terá como prelectores o professor de economia e sociologia da Universidade Católica de Angola, Vicente Pinto de Andrade, e o etnólogo e cientista político Carlos Moore Wedderburn.
No documento que o Tribuna da Kianda teve acesso consta que Mário Pinto de Andrade (MPA) é hoje uma figura incontornável na história do nacionalismo Angolano e que muitos os jovens descobrem na sua figura um herói e uma inspiração para o percurso humanista e pensador.
“Numa altura em que pensar, reflectir e humanizar o modo de estar na sociedade é tido em cada vez mais alta estima, recordar a vida e obra de Mário Pinto de Andrade é ter em mãos o mapa e o exemplo seguro para um tal percurso de excelência”, lê-se no documento.
O papel de Mário Pinto de Andrade na história de Angola foi essencial na qualidade de nacionalista que tem uma dimensão reconhecida por muitos, além dos angolanos conhecedores do seu percurso e intervenção.
A ideia de realizar a conferência sobre o homem e o nacionalismo na visão de MPA, surgiu da sua filha Henda Ducados em companhia de alguns amigos e contam com o apoio do Ministério da Cultura, do Instituto Camões e da Associação Chá de Caxinde.

“Esperamos que encontrem disponibilidade para conhecer um pouco mais e perceber de que modo MPA influenciou, divulgou, lutou e viveu tendo uma clarividência elevada”.

'A PRESERVAÇÃO DA MEMORIA DOS NACIONALISTAS AFRICANOS'

PROGRAMA
9:30 Chegada dos convidados e participantes
10:00 Abertura da Conferência pelo Reitor da Universidade Lusíada
10:15 Palestra proferida pelo Dr. Vicente P. de Andrade*
11:30 Palestra proferida pelo Dr. Carlos Moore Wedderburn**
12:00 Debate
13:00 Encerramento pelo Ministério da Cultura

Dr. Vicente Pinto de Andrade é Professor de Economia e Sociologia na
Universidade Católica de Angola

**Dr. Carlos Moore Wedderburn é etnólogo e cientista político. Foi professor titular de relações internacionais no Instituto de Relações Internacionais da University of the West Indies (UWI), à Trinidade-Tobago. Sua carreira como académico e pesquisador, incluíram cargos como Professor Visitante na Universidade Internacional da Flórida (EUA), e na Universidade das Antilhas (Martinica e Guadalupe). Foi Consultor Pessoal para assuntos latino-americanos do Dr. Edwin Carrington, Secretário Geral da Organização da Comunidade do Caribe (CARICOM),de 1966 a 2000, e de 1982 a 1983, do Dr. Edem Kodjo, Secretário Geral da Organizacao da Unidade Africana (OUA), atualmente União Africana (UA). De 1975 a 1980, foi assessor pessoal do cientista senegalês, professor Cheikh Anta Diop, diretor do Instituto Fundamental da África Negra
(IFAN), em Dakar, Senegal. E, de 1980 a 1984, foi assessor de pesquisa do Professor Robert Jaulin, diretor da faculdade de SociologialAntropologia/Etnologia, Universidade de Paris-7 (França).

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Caso Frescura: julgamento começa dia 24 deste mês


O julgamento dos agentes da Polícia Nacional supostamente envolvidos no massacre de oito jovens na rua da Frescura, no município do Sambizanga, terá início no próximo dia 24 deste mês. Os principais suspeitos encontram-se detidos na Unidade Operativa de Luanda.
Os acusados foram transferidos para esta unidade há cerca de um ano, depois de terem sido apresentados à imprensa, e permanecem no mesmo local enquanto decorrem as investigações.
Há duas semanas, o juiz da 5ª secção do Tribunal Provincial de Luanda, Salomão Filipe, que está a conduzir o processo, avançou à Rádio Ecclésia que desconhecia o paradeiro dos presumíveis mentores do crime que ficou conhecido como “Massacre da Frescura”.
Na mesma entrevista, o juiz avançou também que os supostos criminosos não se encontravam em nenhuma das cadeias onde habitualmente ficam detidos os indivíduos cujos processos transitaram em julgado. Segundo Salomão Filipe, “o processo aguarda pela notificação dos réus e o tribunal está a tomar providências para a localização dos supostos criminosos”. Os acusados foram notificados pelo Ministério Público.
“Ouvi por alto que estão detidos na esquadra da estrada de Catete, mas sempre que os meus companheiros tentaram visitá-los foram impedidos pelas autoridades policiais”, explicou António Simões, que perdeu o filho, Aguinaldo Simões, e o sobrinho, Edson Carlos, no referido incidente.
Nos últimos 15 dias, António Simões compareceu no Tribunal Provincial de Luanda e assegurou ter recebido informações de que o processo segue os trâmites normais, com a notificação dos supostos assassinos. “Fomos informados que os investigadores apresentaram ao Tribunal outros indivíduos cujos dados descritos nos autos não condiziam com os que foram apresentados à imprensa”, especificou António Simões, realçando que “neste momento estão a notificar os reais suspeitos para proteger as pessoas que não têm nada a ver com esse caso”.
O pai de Aguinaldo Simões explicou que vão constituir uma comissão nas vésperas do julgamento para que as pessoas que conhecem os presumíveis assassinos possam identificá-los. “Eles estão a apresentar pessoas que não têm nada a ver com esse crime. Como estamos a trabalhar com os advogados da Associação Mãos Livres, acreditamos que vamos conseguir reverter o caso”, garantiu António Simões.
Por seu lado, Bernardo Manuel, pai do malogrado Fernando Manuel “Nandinho”, 22 anos, espera que as autoridades levem às barras do Tribunal as pessoas envolvidas no assassinato dos oito jovens. Segundo o progenitor de “Nandinho”, os investigadores da Polícia Nacional conhecem concretamente quem são os presumíveis autores da chacina e onde estão actualmente.
Felismina Pedro, mãe de outra vítima, disse que também desconhece o paradeiro dos acusados e nem conseguiu ver os seus rostos quando eles foram apresentados à imprensa. “Não sabemos se os indivíduos continuam presos ou se estão em liberdade. Queremos ver os seus rostos, mas não nos deixam. Se algum dia cruzarmos com um deles não vamos conseguir identificá-los”, assegurou a senhora.

Troca de acusados atrasa julgamento
O presidente do Tribunal Provincial de Luanda, Augusto Escrivão, confirmou em entrevista à Angop a denúncia dos familiares das vítimas do “massacre da frescura”, de que as pessoas encaminhadas ao tribunal não são as mesmas que foram apresentadas à imprensa em 2008.
Depois de ter analisado o processo que deu entrada no Tribunal em 2008, o juiz da causa verificou que as pessoas acusadas não são as mesmas que supostamente cometeram o crime.
“O juiz não é obrigado a aceitar todas as acusações nos processos, uma vez que a lei lhe confere esse direito. Caso verifique que a pessoa acusada não é a que cometeu o crime, ele pode recusar essa acusação, tendo em conta que a Lei prevê recurso”, explicou.
O magistrado deu a conhecer que nesse momento o processo está a correr os trâmites legais, depois de o juiz da causa ter alegado instrução deficiente do processo. Para o efeito, referiu, o Ministério Publico interpôs recurso e o processo seguiu para o Tribunal Supremo, onde ficou decidido, no pretérito mês de Junho, que o juiz da causa deveria receber a denúncia.
Augusto Escrivão informou que o julgamento do processo do caso “Massacre na Frescura”, relacionado com o assassinato, em Julho de 2008, de oito jovens, no município do Sambizanga, poderá acontecer a partir do dia 24 de Agosto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Solução: Eucalipto é uma forma de prevenção



O geofísico Vasco José é de opinião que para além da plantação de eucaliptos é necessário estabelecer onde passa a linha da costa e onde termina a influência marinha para poder estancar o aparecimento de lençóis freáticos como acontece em algumas zonas da cidade de Luanda.

Falando ao Tribuna da Kianda, Vasco José, chefe de Departamento de Geofísica do Instituto Nacional de Meteorologia (INAMET), explicou que a presença de águas salobras em algumas zonas de Luanda pode ser também detectada, através de alguns métodos práticos e convencionais.
Quanto ao aparecimento de águas salobras em alguns bairros de Luanda, o geofísico diz que os lençóis de água sempre existiram e que estão apenas a aflorar e, por outro lado, pode-se associar este fenómeno ao afastamento da costa.
“É preciso termos em atenção que a nossa costa marítima é divergente e que à medida que o tempo vai passando, o mar vai se afastando deixando a sua influência”.
No entender do especialista, só agora é que se assiste ao aparecimento com grande incidência de lençóis freáticos, porque anteriormente existiam alguns métodos de prevenção que as autoridades coloniais implementaram ao construírem a cidade e que hoje já não existem.
“Acabamos com a vegetação, com os cursos de água e houve pessoas inclusive que construíram por cima deles desrespeitando as normas ambientais”.
No entender do responsável do INAMET, este estado de coisas fez com que as águas deixassem de escorrer e “com o passar do tempo foram aflorando-se, resultando naquilo que vemos actualmente”.
O nosso interlocutor atesta que a plantação de eucaliptos é uma das formas de prevenção contra este fenómeno, porque está cientificamente provado que esta árvore absolve uma enorme quantidade de água.
“Acho que as árvores (eucaliptos) acabaram por morrer porque apesar ser uma planta que alimenta-se de muita água é um mastro de transição”.

Demolições em Luanda: Sambizanga, Prenda e outros projectos no papel

O Governo Provincial de Luanda tem em carteira a implementação de vários projectos de requalificação e implementação de infra-estruturas para a maior parte dos municípios e bairros da capital. Devido ao andamento das negociações e assinatura de acordos com as empresas promotoras dos projectos, tornou-se um risco a compra de imóveis em algumas artérias da cidade, tendo em conta que existem proprietários que não têm direito de superfície.
O projecto de requalificação do município do Sambizanga (que circunscreve a Rua Soba Mandume e o Vale do Suroca no eixo este, a Rua Lueji Anconda no oeste e a Avenida N´gola Kiluanje no eixo norte e sul) "imagem ao lado" esteve parado por problemas financeiros que as empresas encontraram para concluir o cadastramento da população, um processo que já decorre a 60 por cento.
O GPL procedeu à assinatura do contrato promessa de concessão do direito de superfície a favor da empresa AKS, promotora do projecto em parceria com a empresa Timple. A zona baixa do Prenda (delimitada pelas ruas comandante Arguelles, na Samba, Vala do Rio Seco e Avenida Revolução de Outubro) será requalificada através de um projecto que está a cargo da empresa Vida Urbana.
A implementação deste plano está atrasado devido algumas dificuldades que a empreiteira está a enfrentar na obtenção de vistos para o pessoal técnico a partir da embaixada de Angola em Cabo-Verde. “Fez-se o cadastramento da população e já foram assinados os contratos de administração urbanística e de concessão do direito de superfície”.
A empresa Sodimo também está a enfrentar dificuldades em obter vistos para os seus funcionários que estarão encarregados de executar o projecto de requalificação da nova cidade de Luanda, no perímetro da Kinanga a Chicala.
O local que servirá para construir residências de alta, media e baixa renda circunscreve-se ao perímetro delimitado pela Nova Marginal, na Rua Doutor Agostinho Neto e na área informal da Chicala. Segundo o documento que vimos citando, o projecto de requalificação do Bairro Operário está a ser promovido pela Associação de Moradores, GPL e pela empresa Willpers Arquitectos como consultora.
A requalificação abarcará as ruas de Massangano e Comandante Bula, no eixo este-oeste, e as ruas N´dunduma e Cónego Manuel das Neves, no eixo norte-sul. Para além dos projectos de requalificação acima referidos, o GPL tem em carteira outros cujas responsabilidades serão atribuídas a empresas particulares ou colectivas que apresentem planos de requalificação do município do Cazenga, bairros do Mártires do Kinfangondo, Catambor e na encosta da Boa Vista.
Dos lotes do Prenda para Viana
Os moradores dos lotes do Prenda que não tiverem condições financeiras para se manter nos edifícios após a sua reabilitação, incluindo os que promovem a ocupação anárquica nos largos e espaços verdes, serão realojados no município de Viana. Esta informação consta no Plano de Requalificação e Desenvolvimento Urbano de Luanda, apresentado pelo arquitecto Gilberto Rita.
O projecto que está a cargo da empresa Talix-Angola abarca todos os edifícios de quatro a sete andares, do tipo T3 e T4, já foi aprovado pela Agência Nacional de Investimento Privado (ANIP) e tem parcialmente em Angola as máquinas e equipamentos que serão utilizados na execução das obras.
De acordo com o documento que vimos citando, o GPL aguarda que o promotor apresente a proposta de realização do consórcio ao IPGUL, por ser a entidade com quem celebrou o protocolo de entendimento.
Segundo informações divulgadas pelo nosso jornal (ver edição 26), as residências para os actuais ocupantes dos lotes começaram a ser construídas ainda este ano e dentro de alguns meses os promotores publicitarão o layout e o plano de urbanização.
As empresas de construção civil Pidi Urbana e Tanix já elaboraram o pacote publicitário, bem como os mecanismos de relacionamento com os actuais ocupantes do referido perímetro. Segundo revelações feitas pelo arquitecto Hélder José, neste momento os parceiros do Governo estão a envidar todos os esforços necessários para conseguirem o capital financeiro a fim de arrancarem com as obras.
A primeira fase do projecto do bairro Prenda abarca a Avenida Revolução de Outubro, a Comandante Arguelles, a Rua da Samba e toda zona da vala de drenagem que passa pelo antigo dispensário de tuberculose. Os actuais ocupantes ou titulares de direito de apartamento serão realojados em edifícios dentro dos padrões estabelecidos que vão servir de moeda de troca com os actuais ocupantes.
O Governo pretende implementar naquela zona o primeiro produto de requalificação urbana no âmbito dessa parceria público-privada, ou seja, o Estado como facilitador na cedência do espaço e a empresa privada que vai buscar os fundos para fazer com que a zona deixe de ser um ponto negativo da cidade.
O projecto a ser implementado será o de renovação urbana dos Lotes do Prenda que consistirá na manutenção da estrutura dos edifícios actualmente existentes, melhoramento das fachadas e da qualidade da arquitectura, não deixando de parte toda a parte do térreo dos edifícios que se encontram degradados.
Atendendo às dificuldades que encontraram para localizar os antecedentes das edificações, em número de três no programa de ordenamento do plano director do período colonial, os técnicos do GPL estão a fazer um novo levantamento dos imóveis.
No princípio deste ano, o Governo lançou um concurso público para a elaboração de projectos executivos de infra-estruturação de algumas zonas da cidade, nomeadamente, Benfica, Palanca, Golfo II, entre outros, tendo em consideração a matriz territorial da habitação.

Novas demolições na forja

O vice-governador provincial de Luanda para a Área Técnica, Bento Soito, revelou que o seu executivo tem em carteira um programa de reordenamento da zona sul da cidade que começará de Viana e terminará nas proximidades do largo da Independência.
O projecto que ainda não tem data para o início de execução foi divulgado sexta-feira passada, durante a apresentação do Programa de Habitação Social, no terceiro painel da Conferência Provincial sobre Urbanismo e Habitação.
Segundo Bento Soito, caso o projecto seja posto em prática poderá melhorar significativamente a qualidade de vida da população por possuir um plano director que engloba redes globais de abastecimento de água canalizada, redes de esgotos domiciliares, estações de bombagem e de tratamento de água, redes de drenagem pluvial, de distribuição de energia, de iluminação pública, áreas verdes, zonas destinadas para mercados, lojas, entre outros serviços básicos indispensáveis para o bem-estar das populações.
Atendendo ao facto de o perímetro escolhido para a implementação do projecto ser uma zona de franco crescimento populacional, a sua execução desencadeará mais uma onda de demolições, o que resultará na destruição de milhares de residências.
O arquitecto Gilberto Rita, do Instituto de Planeamento e Gestão Urbana de Luanda (IPGUL) e que fez a apresentação dos Planos de Requalificação e Desenvolvimento Urbano da cidade, informou quais as zonas que serão abrangidas e as possíveis áreas à demolir.
Já o Projecto Luanda Social (PLS), a ser implementado na margem Bengo e entre o Quilómetro 25 e o 30 de Viana, prevê que “a implementação começará precisamente com o investimento na área destinada à habitação social, para libertar os espaços nobres ocupados por habitações precárias, destinados a alta e média renda”, lê-se no documento que o Tribuna da Kianda teve acesso. Promovido pelo GPL, em parceria com o Ministério das Finanças, o PLS consiste numa proposta de intervenção da empresa espanhola Homt, encaminhada pelo Gabinete de Intervenção de Luanda.
“O projecto está subdividido em duas fases, sendo a primeira de construção de habitação social de média e baixa renda e a segunda de construção de casas de média e alta renda, em áreas nobres da cidade”.
A Comissão Nacional de Implementação do Programa de Habitação já analisou o projecto e vai submete-lo a aprovação do Conselho de Ministros. No que toca as tarefas executadas, o documento esclarece que fez-se o levantamento e definição das áreas onde serão construídas as residências nobres do projecto na zona do Rocha Pinto e as habitações sociais na Margem Bengo.

Proximas demolições: Plano Director de Luanda em elaboração


No documento consta que o plano director da província de Luanda está a ser elaborado por uma comissão que tem como consultor a empresa A1V2, será financiado pelo Governo Central e poderá ser executado em 12 meses. Neste momento, a comissão já preparou as instalações e equipamentos para acomodar os técnicos e consultores, fez o enquadramento dos técnicos de apoio a comissão e efectuou contactos com empresas de consultoria de projectos para a elaboração do Master Plan.
“Aguarda-se a entrega dos termos de referência para procederse a adjudicação dos trabalhos de elaboração do Master Plan e dar continuidade a consulta às empresas de consultoria para a obtenção de propostas”, lê-se no capítulo das perspectivas.
Para além das demolições ocorridas nos bairros do Iraque e Bagdad, no município do Kilamba Kiaxi, o GPL poderá demolir as residências que se encontram no terreno que circunscreve a área em que está a ser construído o estádio de futebol para o CAN, próximo do Campus Universitário, na comuna de Camama.
Quanto ao plano director Cidade do CAN, consta que o Governo terminou, em Junho último, o processo de indemnização dos camponeses e procedeu às concessões de direito de superfície a distintos superficiários.
O início das obras está previsto para o segundo semestre deste ano. “Está em curso o processo de negociação ente o IPGUL e a Urbinvest (empresa financiadora), visando a definição do modelo de parceria para a implementação das obras de infra-estruturas e gestão do projecto”.
As demolições no Camama prosseguirão na zona oeste da Cidade Universitária, pelo facto de o terreno que circunscreve aquele perímetro ser propriedade do Ministério das Obras Públicas que pretende implementar no local um projecto habitacional.
“O projecto foi submetido a análise e apreciação superior para orientação relativamente as modalidades de acesso”. Refere-se também que o GPL encontra nesse momento dificuldades em realojar a população que se encontra no perímetro que circunscreve a estrada Camama-Viana, em posição oposta ao Complexo Habitacional da Eusébios.
No local, está previsto a implementação do Projecto Habitacional Piloto do Camama, cujo prazo de execução poderá ter início em Setembro desde ano. Para não deixar os actuais ocupantes à deriva, os promotores do projecto, nomeadamente, o GPL e a empresa de consultoria GA3, perspectivam construir casas para realojá-los.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Reportagem: Luanda no outro ângulo (IV)


Programa de Realojamento à lupa

O Governo prevê construir 30 escolas primárias, cinco secundárias, 30 clínicas ou postos médicos, um hospital regional, nove centros comerciais e 22 centros de localidades, na comuna do Zango, para suprir a necessidade das mais 160.000 pessoas que habitarão àquela zona. Esta informação consta no relatório do Programa de Realojamento da População (PRP), enviado pelo Gabinete de Obras Especiais (GOE) a organização da conferência.
No documento que Tribuna da Kianda teve acesso, consta que o programa habitacional do Zango está a tornar dimensões de pequenas cidades, comportando actualmente mais de 8.300 casas construídas para 58.100 pessoas, vários equipamentos sociais construídos, entre os quais sete escolas do primeiro nível, um centro de formação, um Instituto Médio de Gestão, um centro cultural, um postos e um centro de saúde, dois supermercados, quatro agências bancárias, um campo polidesportivo e centro integrado de atendimento comunitário
“Almeja-se no futuro a continuação da construção de mais de 20.000 unidades residenciais melhoradas e respectivas infra-estruturas na área do Zango, para o contínuo apoio ao aumento da oferta de habitação de custos controlados”, lê-se no documento.
O PRP procedeu na sua primeira etapa, entre 2002 e 2003, a elaboração de um projecto compreendendo planos urbanísticos e detalhes construtivos das casas para abrigar cerca de 3000 famílias na área de Viana.
“Foi também construído, ao abrigo do Projecto águas de Luanda, uma rede básica de abastecimento de água, fontanários e uma rede de iluminação pública incluindo uma subestação nova e uma linha de 60 kilowets para atender as populações alojadas”.
Em Janeiro de 2005 foi dado o início da segunda etapa visando a construção, até o final do mesmo ano, de 3000 unidades (1500 casas geminadas). Com o início desta fase, ficou imperativo preparar um plano director ao programa com o intuito de organizar o desenvolvimento do projecto.
O documento que vimo citando revela ainda que as casas, do tipo T3, é construída numa área de 60m2, lotes 325 m2 (incluindo área para a construção de anexos), paredes em alvenaria de blocos de cimento, instalações hido-sanitárias e eléctricas, tecto falso, cobertura de chapa e pintura exterior e interior.

Reportagem: Luanda no outro ângulo (III)

Risco na compra de terreno
A onda de demolições de residências do tipo definitiva nos bairros do Iraque e Bagdad, no município do Kilamba Kiaxi, também mereceram a apreciação dos participantes que questionaram ao director do IPGUL, Hélder José, como é possível o GPL mandar demolir milhares de casas cujos terrenos foram adquiridos nas mãos dos funcionários da administração municipal.
O mais alto responsável do IPGUL disse que as pessoas não devem comprar parcelas de terrenos a particulares que não exibam documentação credível, camponeses, autoridades tradicionais, coordenadores de bairro e membros de igrejas por não serem as pessoas habilitadas a praticarem tal acto.
Segundo Hélder José, o croqui de localização, a solicitação feita ao governo da província e a senha de recepção do documento nas administrações municipais não devem ser usados como prova de titularidade de terreno.
O arquitecto que falava durante a apresentação do tema “Ocupações anárquicas de terrenos”, disse que as ocupações estão a ser desenvolvidas de tal forma desorientada que nem os terraços dos edifícios altos foram poupados e que à cidade universitária estaria totalmente invadida se não fosse a vedação. “Se a tendência for o surgimento de bairros com forma labiríntica será muito difícil o surgimento de infra-estruturas sociais”.
Por seu turno, o engenheiro Manuel Van-dúnem, na dissertação do tema “novas Urbanizações”, fez uma breve apresentação dos projectos habitacionais em curso na cidade de Luanda, com maior destaque para as seis torres que serão erguidas no bairro Zango e outras residências no Quilómetro 44, em Viana, bem como nos municípios de Cacuaco e do Kilamba Kiaxi.
O projecto das torres no Zango não obteve o parecer favorável dos participantes pelo facto de os mesmo considerarem que as obras efectuadas naquela parcela da cidade, serem feitas as pressas por não beneficiarem de uma rede saneamento básico bem como outras infra-estruturas sociais.

Reportagem: Luanda no outro ângulo (II)

Luanda sem infra-estruturas básica

O coordenador adjunto para a área produtiva do Governo Provincial de Luanda, Antas Miguel, revelou que a actual capacidade de abastecimento de água potável na capital é de 433 mil e 200 metros cúbicos por dia, o que permite simplesmente o fornecimento a cerca de 3,5 milhões de pessoas no meio dos oito milhões de habitantes existente actualmente.
Antas Miguel forneceu tais informações ao responder as questões feitas pelos participantes após ter apresentado na conferência os “Planos estruturantes da província de Luanda”.
O estado obsoleto do sistema de esgoto e a forma como os chineses estão a construir a vala de drenagem do Senado da Camara, foram algumas das principais preocupações apresentadas pelos conferencistas. Na esperança de responder tais inquietações, Antas Miguel explicou que existe uma enorme necessidade de se construir novos sistemas de esgotos e drenagem, visto que a capital regista actualmente um crescimento rápido, desordenado, infra-estruturas degradadas e subdimensionadas.
“O actual estado da capital do país obriga a um natural investimento tanto no sector público como no privado nas suas macro e micro infra-estruturas de redes técnicas, no imobiliário, no comércio, na indústria e turismo, bem como liga-la às demais províncias do país”, frisou.
Quanto a falta de um canal de desaguamento dos resíduos sólidos produzidos pelos moradores de Viana, o técnico do GPL disse que àquele município foi construído sem uma rede de esgoto e que com a construção de novas infra-estrutura, como os caminhos-de-ferro, o governo e os seus parceiros devem incluir essa preocupação nas suas prioridades.
No seu entender, este cenário só pode ser gerido e equacionado com a existência de instrumentos regulamentares reitores do desenvolvimento territorial e infra-estrutural, capazes de sustentar a perspectiva de crescimento ordenado da cidade.
Para responder as preocupações apresentadas sobre o fornecimento de energia eléctrica à cidade, Bento Soito convidou o vice-ministro da Energia, João Baptista Borges que explicou que regista-se actualmente um défice face aos baixos níveis de produção e transporte de electricidade, comparados com a demanda actual.
“Esta situação poderá ser alterada em 2011 e 2012 com a entrada em funcionamento de novas estações de barragens, bem como a manutenção dos materiais de transporte de electricidade que se encontram em estados obsoletos”.
Na esperança de diminuir a carência de electricidade em algumas artérias da cidade o Governo está a construir e montar subestações térmicas em alguns municípios.

Reportagem: Luanda no outro ângulo (I)

Desapropriação de terras no Mussulo preocupa ilhéus
As autoridades tradicionais manifestaram descontentes pela forma como o governo esta a desenvolver as políticas habitacionais, destruindo as plantações e deixando milhares de camponeses e pescadores na zona da Ilha do Mussulo sem as suas propriedades. Os actos de repugnância foram manifestados durante a Iº Conferência Provincial de Luanda sobre Habitação realizada na sexta-feira, 31, pelo executivo dirigido pela ministra e governadora, Francisca do Espírito Santo, no Centro de Convenções de Talatona.
Durante o debate acerca do primeiro painel denominado “Requalificação Urbana e Novas Urbanizações”, os participantes fustigaram os oradores com questões sobre os métodos utilizados pelo governo na atribuição e fiscalização dos terrenos em algumas zonas de Luanda. As constantes desapropriações de terrenos na comuna do Mussulo, município da Samba, a favor de membros do governo, empresários, altas patentes da Polícia Nacional e das Forças Armadas Angolanas foram apresentadas como um dos principais problemas que afligem os ilhéus.
No entender dos sobas, o governo não consegue mover “nem uma palha” para pôr fim a os actos de vandalismo pelo facto de as pessoas que possuem casas naquele perímetro pertencerem ao executivo. “Não adianta falarmos da Ilha do Mussulo porque se formos a ver, as pessoas que estão ai afrente a dirigir as palestras são as mesmas que têm propriedades na ilha”, desabafou um dos sobas, arrancando aplausos da plateia.
Para as autoridades tradicionais, os governantes estão mais preocupados em apropriarem-se dos terrenos do que a resolverem os problemas da falta de água canalizada e de energia eléctrica naquele arquipélago. Neste particular, os ilhéus dizem que são obrigados a utilizar geradores para suprirem a falta de energia, o que tem sido prejudicial a sua saúde e ao ambiente.
Por seu turno, o soba da comuna de Calumbo, Manuel Ferraz, não se fez de rogado e atestou que os projectos habitacionais que estão a ser erguidos por empresários ou Governo na sua zona de jurisdição, deixará dezena de camponeses sem as suas fontes de rendimento, devido o processo de desapropriação das suas zonas de cultivo.
O soba de Calumbo contou que ajudou os técnicos do Ministério da Agricultura, em 2006, a fazer o cadastramento dos camponeses que residem naquele perímetro para beneficiarem de um programa agrícola que seria financiado pelos Fundos das Nações Unidas para a Agricultura (FAO). Mas, entretanto, acabaram por não beneficiar da ajuda externa porque o projecto terá sido engavetado no Ministério, em benefício dos programas habitacionais que estão a ser desenvolvidos na zona e que acabará por pôr fim ao desenvolvimento da agricultura no local, deixando dezenas de pessoas no desemprego.
Agastado por constatar logo de início que na conferência não sairiam soluções imediatas para resolver o problema dos seus correligionários, o soba da Ilha do Mussulo recusou-se a prestar declarações ao Tribuna da Kianda.
O director do Instituto Planeamento e Gestão Urbana de Luanda (IPGUL), Hélder José revelou a este semanário que o problema das construções anárquicas na Ilha do Mussulo não é da responsabilidade do GPL, mas sim da alçada de uma comissão criada pelo Governo Central.
“Esta comissão está a trabalhar com vista a resolver os problemas que afligem a população que residem naquela localidade e pôr fim aos atropelos as regras arquitectónicas e ambientais recomendada em construções feitas em locais como o Mussulo”, frisou.

Anunciantes investem 29,3 milhões

Os anunciantes investiram 29,3 milhões de euros em publicidade na televisão e na imprensa angolanas durante o ano de 2008, o que representa cerca de 5% do que foi gasto nesses meios em Portugal.
Segundo dados da Marktest Angola, que lançou no ano passado o primeiro estudo sobre investimentos publicitários nos medias angolanos, os três canais de televisão mais vistos (TPA, Globo e Record, já que a TV Zimbo ainda não tinha sido lançada há tempo suficiente) arrecadaram 7,5 milhões de euros dos anunciantes. Valores que são calculados de acordo com preços de tabela, o que significa que não são contabilizadas as promoções e descontos habitualmente oferecidos aos anunciantes pelos meios de comunicação.
Em Portugal, a televisão em sinal aberto (RTP, SIC e TVI) recebeu em 2008 cerca de 380 milhões de euros em publicidade.
Na imprensa - o outro sector da comunicação social analisado pela Marktest Angola -, as marcas investiram 21,8 milhões de euros durante o ano passado, o que, embora seja quase o triplo do conseguido pela televisão, não chega a representar 15% do total recebido pela imprensa portuguesa.
Do valor investido nos jornais e revistas angolanos, uma fatia significativa (43%) foi canalizada parar o Jornal de Angola. O restante foi distribuído em 26% para as revistas, em 21% para jornais semanários e quinzenais e 10% para os títulos desportivos.
A banca foi o sector que mais investiu em publicidade no ano passado, investindo 2,9 milhões de euros, seguido das telecomunicações, que gastaram 2,1 milhões de euros. Individualmente, a operadora de telecomunicações Movicel foi a marca que mais investiu, dedicando 1,3 milhões de euros a publicidade.
Segundo a mesma fonte, a televisão é o meio de comunicação preferido, sendo seguido por 91,9% da população da Grande Luanda, seguida de perto pela rádio, que é ouvida por 85,5% dos inquiridos, e a imprensa é lida por mais de metade da população da capital angolana.

Bento Soito transformado em cão

A história das demolições de residências nos bairros do Iraque e Bagdad, no município do Kilamba Kiaxi, em Luanda, desencadeada por uma equipa do Governo Provincial escoltada por efectivos da Polícia Nacional e das Forças Armadas Angolanas (FAA) tornou-se o tema de conversa em todos os cantos da cidade. Não importa o local. No taxi ou numa repartição pública, basta estarem duas ou mais pessoas que o assunto era as demolições.
Informações divulgadas pelos jornais com periodicidade semanal em Angola dão conta que quinze mil pessoas perderam os seus pertences, como fruto da intervenção do peso de dez máquinas pesadas. Tal vez esse facto terá despertado o interesse dos cidadãos a não resistirem em tecer algum comentário.
Como o meu velho companheiro Toyota Starlet decidiu fazer àquela paragem momentânea e normal para todas as viaturas provenientes da Europa, fui obrigado a andar de taxi na manhã nublosa do sábado, 1, com destino à universidade. No candongueiro, como são chamado os taxis aqui na banda, encontrei duas passageiras, cuja idade revelavam estar acima dos 50 anos, a debruçarem sobre o assunto das demolições fazendo uma mistura da língua tradicional kimbimdu com o português.
Pela forma revoltada como abordavam o tema dava logo a entender que nem a conferência provincial sobre Urbanismo e Habitação, realizada um dia antes no Centro de Convenções de Talatona foi suficiente para as autoridades desviarem as atenções da população.
A azáfama nos dois bairros, ocorreu numa vasta área em que se encontravam erguidas milhares de casas desde o condomínio Jardim do Édem e se estendia até ao Lar do Patriota. Entre os moradores, os mais corajosos tentaram retirar os seus pertences no mesmo instante em que as máquinas deitavam abaixo as suas residências. Ludibriando as forças para-militares que guardavam o local. Enquanto os menos corajosos assistiam em estado de choque as demolições.
As minhas companheiras de viagens convidavam assim os demais a participaram do debate. Logo na primeira paragem após a minha, subiu outra passageira mestiça que ao se aperceber do conteúdo da conversa sorria de forma camuflada do linguajar utilizado pelas comunicadoras. De um jeito meio inusitado e na esperança de conseguir obter entre os passageiros a tradução das frases em kimbundo que me escapavam, questionei aos jovens se estavam o compreender.
Eis que como num passo de mágica, o jovem que ocupava um lugar depois do meu pôs-se a traduzir literalmente tudo. “A maior parte das pessoas viviam ali desde 2003 e compraram o terreno nas mãos dos funcionários da administração”, disparou questionando de seguida as anciãs se estava certo ou errado. Recebendo um sim como resposta.
As viajantes contavam que um dos meios de comunicação social noticiou que uma senhora enforcou-se devido à demolição do seu mini-prédio. “A mulher não suportou os danos causados pela demolição do seu imóvel e matou-se deixando quatro filhos”, contou uma delas com um tom que entristeceu os demais passageiros e instalou um clima de revolta. “Mas esse Governo não respeita mesmo o povo. As pessoas já perderam tudo o que tinham com a guerra e agora que conseguiram construir com muito suor o sítio para se protegerem do sol, da chuva, dos marginais e das noites frias ele manda partir. Que brincadeira é essa?”, questionou, acrescentando de seguida que “assim mesmo a pessoa que mandou demolir às casas consegue dormir em paz com a sua família, enquanto os outros estão ao relento”.
Com uma voz enfurecida a outra interlocutora respondeu “se isso acontecesse comigo transformaria o vice-governador, Bento Soito em cão. Assim estaríamos todos na mesma situação, pois embora um cão não mereça ser tratado desta forma”.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Sobrevivência: Lixo transformado em negócio

Na passada terça-feira, 30 de Junho, por volta das 12h00, encontramos Margarida Ventura, 50 anos, com pequenas pedras nas mãos retiradas do meio de um entulho depositado num terreno de céu aberto, sua pertença, na zona da Camama, em Luanda.
O vasto terreno em que falamos com a senhora foi convertido em zona de depósito de lixo retirado das várias obras de construção civil da capital, descarregados por camiões basculantes, onde se aproveitam peças de madeira e de metal e pedras para posterior comercialização.
Quando chegámos, Margarida Ventura separava pedras do escolho que juntava em montes, separados uns dos outros por curtos espaços, à espera de potenciais clientes. Recolher pedras, madeiras, ferros, cobre e alumínio nos amontoados de entulho para comercializar é a forma que dezenas de mulheres e jovens desempregados encontraram para sustentarem as suas famílias.
Margarida Ventura é o retrato fiel de pessoas que em Luanda encontraram neste tipo de actividade o seu ganha-pão, tendo-se convertido já numa empresária de sucesso. Na sua área de jurisdição, na Camama a “sucateira”, como prefere que a chamem, não actua sozinha. Ela deu “emprego” a outros dez jovens que sustentam as suas famílias com o dinheiro arrecadado da venda destes materiais.“Comecei a desenvolver esta actividade em 2001, numa altura em que precisava de fazer alguma coisa para garantir a formação dos meus filhos e netos”, justificou a Sucateira.
Camionistas na jogada Para garantir o despejo de entulho em seu terreno, Margarida Ventura estabeleceu acordo com os motoristas de camiões basculantes de empresas de construção civil nacionais e estrangeiras. “O contrato com as construtoras não é pago porque eles também beneficiam ao deixarem de percorrer longas distâncias para deitarem o lixo das obras. Ambas as partes saem a ganhar”, disse.
A sucateira explica em pormenor a forma como se desenrola o negócio entre ela e os camionistas, advogando que dispensam comprar entulho e alugar um bulldozer visto, que eles se responsabilizam por tudo isso. A sucateira esclareceu ainda que quando a empreiteira decide retirar o equipamento do local, ela vê-se obrigada a desembolsar 120 dólares por hora para o aluguer de uma máquina de outra empresa.
Para além dos seus “funcionários”, o processo de recolha desses materiais é reforçado por vários grupos de crianças que se deslocam àquele local para brincar. Estes recolhem as peças e vendem-nas à proprietária do terreno ao preço de 300 Kwanzas.
“Somos nós quem estabelecemos os preços às crianças e aos jovens que vêm aqui vender ferro ou alumínio, pelo facto de os nossos potenciais compradores não terem um preço fixo”. Ferro, o mais procurado do lixo comercializado naquele recinto, o ferro é o que mais rende ao bolso de Margarida Ventura, seguindo-se o cobre e o alumínio. Desde 2005, o negócio passou a ter outros contornos, com a entrada em cena de cidadãos indianos que começaram a comprar toneladas de sucata para enviarem para o exterior.
Depois de se familiarizarem, segundo a nossa interlocutora, os compradores deixavam no local mais de dez contentores de 20 pés, adiantavam o pagamento de cinco e tão logo recebessem a informação que todos estavam cheios, faziam a liquidação dos restantes.
“No princípio vendíamos o contentor de 20 pés a 1.500 dólares, mas depois apercebemo-nos que estávamos a comercializá-los a um preço inferior ao praticado pelos nossos concorrentes que já cobravam mais de 2.000 dólares cada. A partir daí aumentamos o valor para 3.500 dólares”, disse. Acrescentando de seguida que “o dinheiro adiantado serve para pagar os funcionários e aluguer do equipamento para cortar os ferros que não cabem no contentor”.

2. Crise financeira aperta
A crise financeira em curso está a dificultar o desenvolvimento do negócio, visto que os compradores de sucata ausentaram-se do mercado. Margarida Ventura disse acreditar que quando a crise passar os indianos e os seus parceiros continuarão com o negócio, por isso está a criar um stock capaz de satisfazer a procura.
Antes da crise, a sucateira tinha fechado um contrato verbal com alguns compradores indianos que se resumia no enchimento de 50 contentores de 20 toneladas e em troca recebia dois camiões basculantes com guincho.
“Aposto que com a venda dos 50 contentores, eles tirariam a triplicar os 70.000 ou 80.000 dólares que gastariam com a compra destes equipamentos. E eu teria a felicidade de deixar de alugar estes meios para recolher as peças dos entulhos”. Para facilitar o controlo das mercadorias, a comerciante utiliza uma balança de grande porte adequada para o efeito.
A fama da nossa interlocutora espalhou-se pelo bairro e actualmente os jovens desempregados procuram recolher ferros e alumínio na zona para venderem a ela. No buraco da Camama, como também é designado o local, Margarida Ventura retira ainda uma enorme quantidade de madeira diversa, entre contraplacados, ripas, paus, estrados, entre outros, que são comercializados aos marceneiros e carpinteiros.
“O preço varia em função do tipo e da quantidade da madeira que o cliente vai levar; um carro de mão cheio pode custar de 500 a 1.500 Kwanzas, mas quando as pessoas dizem que não têm dinheiro, acabo por oferecer”. Instada a exemplificar, Margarida Ventura disse que do buraco da Camama saem madeiras que são utilizadas para fazer cadeirões, quadros, bancadas e gaiolas.
No negócio da madeira, a sucateira diz que consegue tirar maior proveito da parceria que estabeleceu com o seu sobrinho marceneiro de profissão que utiliza este material para fazer gaiolas de pássaros, comercializadas a 30.000 Kwanzas cada. Em troca das madeiras, o jovem faz quatro gaiolas e depois de as vender entrega o dinheiro de uma delas à sua tia. “Vi que ele tem jeito para a coisa e achei que esta seria uma forma de ajudá-lo. Desta forma, consigo também dinheiro para pagar os meus funcionários e manter o local intacto dos invasores”.
3. Venda de pedra em queda
O trabalho desenvolvido para manter as pedras à vista dos clientes é o mais fastidioso e moroso, estando entre os menos rentáveis.
Margarida Ventura explicou que, normalmente, os camionistas depositam os entulhos próximo ao buraco, e para evitar que as pedras sejam atiradas pelo bulldozer, os seus funcionários recolhem-nas com a ajuda de um carro de mão e transportam para um lugar seguro, onde de seguida é partido. “Depois de partidas, os meus dois filhos e o sobrinho ajudam-me a arrumar as pedras num local visível onde são comercializados”.
O preço do monte de pedra varia em função da procura e da composição da mesma. As compostas de betão são as mais caras, por oferecerem maior resistência e durabilidade. “Inicialmente tinha estabelecido acordo com os jovens. Eles partem, arrumam e vendem os montes de pedras ao preço que vai dos dez a 12mil kwanzas cada, ficando o dinheiro de dois montes com eles como pagamento”, explicou.
Como às vezes não há clientes, os vendedores optam por receber três mil Kwanzas por monte e dois mil Kwanzas pela arrumação. Margarida Ventura revelou, por outro lado, que o comércio de pedras baixou de forma drástica nos últimos tempos devido às constantes demolições que têm sido desencadeadas pelo Governo Provincial de Luanda (GPL). A líder da venda de lixo extraído dos entulhos atesta que está há dois meses sem vender nenhum monte de pedra.

4. Viana, outra zona de exploração
Domingas Mendonça, 36 anos, moradora no Quilómetro Nove, em Viana, diz que há um mês que sustenta a sua família com o dinheiro proveniente da venda de lixo retirado dos entulhos. Contrariamente às suas colegas que exercem essa actividade no Benfica e na Camama, em Viana, as comerciantes estabelecem o preço em função da quantidade solicitada pelo cliente. “Vendemos o monte a 2mil kwanzas, mas se o cliente reclamar pelo preço baixamos até 1.500 kwanzas”, explicou.Actualmente a procura de pedras naquela zona tornou-se maior que a oferta, pelo facto de os camiões terem suspenso o depósito de entulho, o que tem provocado a escassez do material. Para conseguirem pedras, as vendedoras contam com a ajuda de crianças dos 10 aos 16, que sobem aos entulhos de três metros de altura à procura de negócio.
No local, encontramos o adolescente Mendes Sabalo, 12 anos, estudante da terceira classe, que se encontrava em cima de um monte de entulho à procura de pedras, enquanto os seus companheiros, cujas idades não diferem muito, faziam o mesmo trabalho. “Faço este trabalho todos os dias antes de ir à escola, porque daqui consigo tirar o dinheiro para ajudar os meus pais a comprarem os materiais escolares e roupa. As senhoras pagam-me 400 kwanzas por cada pedra que descubro”.Depois de localizadas as pedras, as crianças tratam de retirar toda a areia que estiver ao seu redor e empurram-nas para baixo. Daí, os passos a seguir são marcados pelas comerciantes que as partem com a ajuda de uma marreta que pesa mais de oito quilogramas.

5. Talatona, pobres fazem a diferença
Em Talatona, deparamo-nos com a senhora Caro Tchimica, 39 anos, a partir uma pedra de mais de 80 centímetros. No local há mais de um mês, ela explica que foi parar ai de forma casual.
“A minha casa é aqui próximo e sempre que passava por esta zona via as minhas vizinhas a juntarem as pedras para venderem, e assim decidi juntar-me a elas e cá estou até hoje”, contou.
Segundo ela “às vezes ficamos três dias sem vender, mas como aqui há muita procura, temos sempre a certeza de que dias melhores chegarão”. O ferimento no dedo indicador causado por uma marreta de dez quilogramas não inibia a nossa interlocutora que, de forma destemida, erguia-a para o alto e de seguida arremessava para a pedra enorme.
“Apesar de ter esta ferida no dedo, não pretendo parar de fazer isto porque é daqui que sai o sustento para a minha família. Nos primeiros dias, como a dor era muita, não tive outra hipótese senão ficar em casa a repousar sob orientações médicas mas voltei a ter dificuldades financeiras”, explicou.
Buraco de conflitos
Um casal que diz ser o proprietário do terreno que circunscreve o buraco da Camama tem estado a travar uma dura batalha com a Administração Municipal do Kilamba Kiaxi que pretende dar uma outra finalidade ao local.
Margarida Ventura contou que antes de ocupar o terreno, em 2001, deslocou-se à Administração Comunal da Camana onde, sob orientação do antigo administrador, foi elucidada sobre os passos que deveria dar para legalizar o espaço.
Após a legalização do terreno, o casal teve de se desdobrar para conter as invasões. Enquanto o senhor Ventura contactava algumas empresas de construção civil para depositarem entulho no local (para taparem os buracos), Margarida passava todo o dia a tomar conta. “O meu esposo foi até a Elisal e a direcção da empresa informou-o que naquele local só poderiam meter pedras e areia para acalcar o terreno”, contou.
Depois de legalizado o terreno no Governo provincial e entulharem uma parte dele, o casal voltou a entrar em campo, mas desta vez para estabelecer parceria com algumas instituições do Estado. “Conseguimos estabelecer parceria com a Sonangol Distribuidora que ficou de vir montar aqui uma bomba de combustível e com o Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos de Guerra, que também tem um projecto para esta zona”.
Margarida Ventura desabafou ainda que o antigo governador de Luanda, Job Capapinha, levou vários empresários àquele local, propondo a sua venda.

Da fábrica à parede: o percurso de um bloco de cimento

A substituir o tijolo de argila, os blocos de cimento são os mais utilizados nas novas construções e a sua produção gera milhares de empregos

O dia amanhece e, com o advento da luz matinal, dezenas de cidadãos de diversas faixas etárias deslocam-se ao bairro do Kikolo para mais um dia de trabalho. No local, os vestuários que trazem no corpo são substituídos por calções, camisas empoeiradas e, de forma animada, arregaçam as mangas segurando pás, baldes de água e transportando sacos de cimento de um lugar para outro dando início assim a mais um dia de trabalho.
O facto deste bairro ser considerado o pioneiro na produção e comercialização de blocos de cimento e areia levou a equipa de reportagem do Tribuna da Kianda a constatar como é desenvolvido actualmente tal ofício. Logo, no primeiro local onde se fez a primeira paragem, deparou-se-nos o cidadão Sabalo Mungongo, 50 anos, a contabilizar os blocos, enquanto o seu colega prepadepender simplesmente do serviço de gerente”.
Sem poder especificar ao certo quanto ganha mensalmente pelo serviço prestado, o “Soba dos blocos”, como também é chamado, revelou que as pessoas que fazem os blocos recebem 500 kwanzas por saco e os arrumadores dependem estritamente do contrato que fazem com os clientes (para carregar e descarregar o valor varia de dez a 15 kwanzas por bloco). “Fica difícil dizer quanto ganho porque o meu salário também não é mensal e depende da quantidade de blocos que vender e da arrumação”, contou.
Sabalo Mungongo explicou que as oscilações registadas no preço do cimento desde o ano passado, o surgimento de novas fábricas de blocos e a expansão desse serviço nos demais municípios provocaram uma queda brusca nas vendas. Contrariamente aos tempos idos, actualmente os fazedores de blocos podem ficar mais de uma semana sem vender.
Com a alegria estampada no rosto, Mungongo contou que é chefe de uma família constituída por oito filhos e que conseguiu resolver o problema da casa própria com dinheiro arrecadado deste tipo de serviço. “Comprei a minha casa graças a esse trabalho, mas hoje em dia os jovens já não conseguem sobreviver apenas com o dinheiro proveniente daqui, porque há muita oferta, pouca procura e os lucros não são muito animadores”, rematou.
Segundo Sabalo Mungongo, antigamente o bairro do Kikolo era considerado como o “berço dos blocos”, porque havia muita gente a comercializar o produto e isso não impedia que cada um deles vendesse diariamente mais de 1000 blocos. “Com o dinheiro arrecadado deste bem dá simplesmente para sustentar os meus oito filhos e comprar alguns materiais escolares”, explicou.
Cimento determina os preços
O preço do cimento e da área determinam o preço do bloco. Depois do contacto com o mais velho Sabalo, dirigimo-nos em direcção ao Cemi tério do 14 onde encontrámos outro amontoado de blocos que, devido à variedade dificilmente passa despercebida aos olhos dos transeuntes que circulam por aquela zona. Defronte aos materiais estava o jovem Augusto Manuel, 30 anos, solteiro, sentado numa cadeira à espera de clientes.
A poeira deixada pelos automobilistas que circulam na zona não impedia o comerciante de chamar os possíveis fregueses. “Temos as persianas de armazéns (300 Kwanzas), bloco para placa (90 Kwanzas), vigotas (750 Kwanzas o metro) e balaíça (o preço varia de 1000 à 2000 Kwanzas em função do feitio) ”, detalhou Augusto Manuel.
Augusto Manuel que exerce essa actividade há sete anos, em parceria com um tio que é o dono do negócio. Diz que outrora o negócio dava para sobreviver, mas desde que surgiram as empresas especializadas na produção deste material que se regista uma queda.
“Desde que a Zagop começou a fazer as obras de reabilitação da estrada já não há muita clientela e como ficamos com um espaço pequeno para fazer blocos, guardamos os sete mil blocos que temos naquele recinto”, especificou, apontando para um quintal situado no outro lado da estrada. Os blocos de 12 no quintal de Augusto Manuel são comercializados a 85 Kwanzas e o de dez a 75 Kwanzas. “Nós dependemos do preço do cimento, quanto mais subir mais caro será o preço do bloco e vice-versa.
Já a quantidade de sacos feitos por dia depende da procura e do número de trabalhadores que estiverem engajados”, explicou. No local onde Sabalo Mungongo comercializa o mesmo produto, o bloco de dez custa 65 Kwanzas e o de 12, 75 Kwanzas. Para justificar o preço o “Soba dos blocos” diz que este preço é estabelecido pelo facto de estarem a comprar o saco de cimento a 1500 Kwanzas, a cisterna de água de 10 mil litros a 10 mil Kwanzas e a carrada de areia a 35 mil Kwanzas.
“O número de blocos que sai em cada saco varia em função da quantidade de cimento que estiver no saco, visto que em alguns saem 60 e noutros 50 blocos fortes. No meio de tudo não há como vendermos este material num valor inferior a esse porque estaríamos a oferecer”, detalhou Sabalo Mungongo, demonstrando um ar de tristeza.
Contrariamente ao seu colega que é obrigado a adquirir água nos camiões cisternas, Augusto Manuel revelou que utilizam a água do esgoto da fábrica de tecidos e malhas Textang II e que em cada saco de cimento tira 45 blocos. “Não temos um salário fixo porque dependemos da quantidade de blocos que vendermos. Se não aparecer clientes durante uma semana paralisamos a produção e tão logo comercializamos uma pequena quantidade retiramos os dividendos e retornamos”.
Os produtores são unânimes em afirmar que o comércio tem maior saída aos sábados e domingos. “Apesar d este negócio não render muito é melhor do que ficar desempregado ou enveredar para a vida do crime. Só para terem uma ideia, no final de semana chegamos a vender mais de quatro mil blocos só num dia”.

Placas substituem os blocos
Defronte à Textangue II encontrámos outro grupo de jovens que exercem essa actividade, engajados na venda de vigas a um cliente que se fazia transportar numa carrinha branca. Enquanto uns contabilizavam os materiais, os outros transportavam-nas para a carroçaria do automóvel.
O Constantino de Matos Ferreira (na foto), 32 anos, sete dos quais a exercer essa actividade, contou que para além da produção de blocos, vigas, tijoleiras e persianas, também fazem trabalhos de escavação de tanque, fossas sépticas e enchimento de placas. “É bem verdade que há carência de clientes, mas conseguimos sobreviver porque às vezes também aparecem pessoas a solicitarem-nos para cavarmos buracos ou enchermos placas”, disse o interlocutor.
Questionado quanto cobram pela execução de um desses serviços, Constantino Ferreira disse que depende das dimensões e da área, “se for para cavar um buraco para tanque de 15 mil litros no bairro da Ecocampo, por exemplo, cobramos 500 dólares já se for numa próxima o preço varia de 300 a 350 dólares, para um tanque de 12 ou 13 mil litros”. Constantino Ferreira aclarou que o valor da placa varia também em função das medições, da camada e do proprietário da obra, “há patrão que aceita pagar 100 dólares a cada pessoa só num dia e há outros que desembolsam apenas 75 dólares”.
O nosso interlocutor que foi escolhido pelos seus colegas para prestar declarações a O PAÍS, disse que para executarem este tipo de serviço engajam-se normalmente 20 pessoas e passam a noite ou o dia todo a trabalhar. “O dinheiro que sai daqui dá para viver, tanto é que todos nós temos casa própria e vivemos com as nossas famílias. Eu tenho quatro filhos e consigo levar a vida desse jeito”, frisou.
O grupo de Constantino Ferreira é constituído por cerca de 10 indivíduos e todos eles estão disponíveis para se deslocarem para outros pontos da cidade, sempre que necessário, para fazerem blocos desde que o cliente disponibiliza-se a arcar com as despesas do transporte e acomodação. “Para além dos clientes que vêem até aqui, há ainda outros que têm 100 ou 200 sacos de cimento e contratam-nos para fazer os blocos no seu terreno.
Neste caso, ficamos no local até fazermos todos os sacos e cobramos 500 Kwanzas cada um”, rematou, acrescentou de seguida que “o preço estipulado pela nossa permaneça no local pode ainda ser alterado caso ele garante a alimentação”. Contrariamente aos outros locais por onde passamos, Constantino Ferreira e os seus amigos trabalham por conta própria e têm estabelecido uma parceria com a dona do quintal que consiste simplesmente em fornecer-lhe mensalmente 150 blocos.
“Os donos dos terrenos normalmente estabelecem esse método de pagamento para juntarem material para construírem as suas residências porque, vejamos: cada bloco de 12 são 80 Kwanzas e se tivéssemos que fazer o pagamento em dinheiro seria 12 mil Kwanzas”, rematou.
Por seu turno, Mateus Garcia, um dos arrumadores de blocos, confidenciou a este jornal que já conseguiu comprar um terreno e que está a reunir todas as condições para construir a sua casa com o dinheiro arrecadado deste serviço.