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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Julgamento à porta fechada

O juiz Adriano Baptista decretou que o julgamento deverá decorrer à porta fechada a partir da próxima audiência que será realizada no dia 7, atendendo a um dos requerimentos apresentados pela procuradora Emenajada Verdeira.
Para convencer o juiz a atender o seu pedido, a magistrada judicial argumentou que esta seria a medida adequada para impedir que haja troca de informação entre as declarantes sobre o que se passará durante as sessões, antes mesmo de virem depor.
“Solicito que as audiências sejam secretas para não permitir a comunicabilidade entre as pessoas, temos uma assistência tão vasta que obviamente há quem tenha interesses de passar alguma informação a outros declarantes”, justificou.
Adriano Baptista informou que depois da próxima audiência, em que terão que comparecer todos os declarantes, só poderão comparecer em Tribunal as pessoas que foram notificadas para o efeito.
O pedido da procuradora não terá preocupado à instância de defesa dos réus como a de acusação, pelo facto de nenhum deles ter si pronunciado sobre o assunto, antes mesmo de o juiz se ter pronunciado.

Processo: ex-governador e familiares entre os declarantes

O Ministério Público arrolou 35 pessoas como declarantes a serem ouvidas durante o julgamento, entre as quais constam o nome do ex-governador provincial de Luana, José Maria Ferraz dos Santos, dos seus irmãos António Ferraz dos Santos e Maria Adelaide dos Santos, da sua mulher e de uma jovem que, segundo o tribunal, mantém uma relação amorosa com ele.

Este facto levou o advogado, Benja Satula, defensor de Florentino dos Santos, a requerer a redução dos declarantes tendo em conta que muitos deles não sabem o que ocorreu de concreto e em nada poderão contribuir para a descoberta da verdade.
“Foram arroladas várias pessoas ligadas a José Maria Ferraz dos Santos, quando, na verdade, muitos deles não sabem o que terá ocorrido e podem não dar nenhum contributo para a descoberta da verdade dos factos. O que poderá fazer com que o julgamento que pode ser concluído este ano, se prolongue por muito mais tempo”, argumentou Benja Satula.
Ao pronunciar-se sobre este requerimento, a Emenajada Verdeira manifestou que não estava de acordo por considerar que se a sua colega que trabalhou no caso arrolou-as como declarantes é porque elas têm alguma coisa de importante a dizer sobre o mesmo.
Considerou ainda que se ficar constatado durante as audiências que as declarantes não contribuíram em nada para a descoberta da verdade, o tribunal poderá cancelar os seus depoimentos para não perderem tempo.
Esta mesma posição foi partilhada pela equipa de advogados de defesa dos familiares da vítima, constituído por Bruce Mazambe Filipe e Correia Vicente e o juiz Adriano Baptista indeferiu.
Por outro lado, a procuradora requereu ainda a inclusão de uma cidadã, no leque das declarantes, por considerar que ela poderá contribuir para aclarar os factos e o pedido foi aceite, o que perfaz um total de 36.
Atendendo à ausência de um número considerável de declarantes, entre os quais o ex-governador e a sua esposa, Emenajada Verdeira requereu que os mesmos devem justificar por escrito os motivos que os levou a não comparecerem e a aplicação de uma multa por este facto. O pedido foi aceite pelo juiz da causa sem nenhuma obstrução.
O advogado Bruce Filipe requereu que José Maria passe de declarante a réu, com base nos fortes indícios que há sobre a sua participação no crime, mas este pedido foi protestado pela representante do Ministério Publico, por considerá-lo inconstitucional e indeferido pelo juiz.
Segundo o meritíssimo, este pedido devia ter sido feito durante a fase de instrução processual e não agora que o mesmo se encontra em julgamento, mas caso venha a provar-se ser necessário será aberto um processo à parte para que assim se proceda.

Zé Maria acusado de ser mandante da morte de Eurídice

Zé Maria, ex-governador de Luanda
O ex-governador provincial de Luanda, José (Zé) Maria Ferraz dos Santos, é acusado de ter sido o mandante do assassinato da jovem Eurídice Bernarda de Oliveira Cândido “Dodó”, 30 anos, com quem tem uma filha de três anos, ocorrido no dia 28 de Janeiro do ano passado.
O crime foi praticado por um grupo de três indivíduos supostamente contratados por um dos irmãos do ex-governador, que responde pelo nome de Florindo Ferraz dos Santos, vulgo Filó, a seu pedido, em troca de vinte e cinco mil dólares e cinco casas no projecto habitacional do Panguila.
Está informação foi revelada pelo juiz-presidente da 4º Secção de Crimes Comuns do Tribunal Provincial de Luanda, Adriano Baptista, ao proceder à leitura da pronúncia durante a audiência de julgamento realizada na pretérita sexta-feira, 30.
Para convencer o Florentino dos Santos a satisfazer o seu pedido, Zé Maria ter-lhe-á contado que a sua ex-namorada estava a criar-lhe alguns embaraços que poderiam prejudicar a sua carreira política, numa altura em que se encontrava em franca ascensão, tendo em conta que o Presidente da República lhe conferira a difícil missão de dirigir à capital do país.
Diante dos argumentos acima apresentados, o espírito de irmandade e a elevada quantia monetária que estava em jogo, Florentino dos Santos, não terá pensado duas vezes em aceitar o pedido e deslocou-se ao município do Cazenga, local onde viveu muitos anos, e contratou o seu amigo Carlos Pedro Missinda para recrutar os presumíveis executores.
Alguns dias depois, os dois amigos terão voltado a encontrar-se algures no bairro do Kikolo e, segundo a pronúncia, Florindo entregou a Carlos Missinda uma fotografia de Eurídce Cândido para que as fizesse chegar aos supostos assassinos.
Neste mesmo encontro, o mandatado do antigo governador de Luanda terá sugerido ao seu interlocutor que orientasse os membros da equipa de execução, nomeadamente, Miguel Matowana, Matomena António e um outro identificado apenas por Missinda, que procurassem um kimbandeiro para os fazer tratar. Porque só assim, conseguiriam assassinar a jovem sem grandes dificuldades, atendendo ao facto dele ser daquelas pessoas que frequentavam constantemente casas de feitiçaria.
De modo a não defraudar as expectativas do seu cliente e receberem os bens materiais que estavam em jogo, os supostos meliantes dirigiram-se à residência de um curandeiro de nacionalidade congolesa, muito afamado no bairro do Kikolo, onde terão cumprido com um ritual de velas pretas acesas, que serviram para invocar os espíritos, seguido de banho de água preparada com produtos tradicionais, adquiridos pelo valor de cinco mil Kwanzas entregue por eles dias antes.
O juiz-presidente revelou ainda que o curandeiro foi deportado para o seu país pelos oficiais dos Serviços de Migração e Estrangeiro por se encontrar em Angola de forma ilegal. O que terá sido um dos motivos que levaram a representante do Ministério Público a não arrolá-lo no processo como declarante ou testemunha.
Confiantes no efeito do trabalho do curandeiro, o suposto quarteto de malfeitores ter-se-á dirigido, numa viatura com a chapa de matrícula falsa, furtada em casa de uma cidadã por um dos integrantes da quadrilha alguns meses antes, ao local onde a presumivelmente a vítima se encontrava.
Segundo Adriano Baptista, um deles foi dando conta de todos os passos ao cidadão Florentino dos Santos, como o comprovam os estratos dos telefones de ambos, fornecidos por uma das operadoras de telefonia móvel que operam no nosso país.
“Ao verem a jovem a parquear a sua viatura de marca Mercedes no seu local habitual, debaixo do prédio onde residia, um dos indivíduos desceu da viatura, apontou-lhe a arma à cabeça e efectuou um disparo”, especificou o juiz.
Com o rosto parcialmente desfeito devido à forma como o tiro entrou e saiu na nuca, Eurídce Cândido caiu ao chão, ao lado da sua viatura, e os marginais meteram-se em fuga, acreditando que não estavam a deixar nenhuma pista que os ligaria ao crime.
O juiz-presidente declarou ainda que naquele mesmo dia existia fraca movimentação de peões e de automobilistas pela rua Comandante Eurico, por causa das chuvas fracas que assolaram então a capital do país.
 
Pagamentos e suposta queima de arquivo
Depois de terem cumprido a operação com bastante êxito, o intermediário terá comunicado imediatamente o resultado a Florentino dos Santos e este, por sua vez, marcou um encontro e entregou-lhe parte dos valores acordados, isto é, dez mil dólares, com a promessa de que receberiam o resto na segunda-feira. Durante o referido encontro o mesmo ter-se-á inteirado sobre o estado em que ficou a vítima e se existia alguma possibilidade dela se salvar, caso alguém a socorresse.
Presume-se que na segunda-feira seguinte, o mandatado de Zé Maria voltou a encontrar-se com Carlos Missinda para entregar-lhe os 15 mil dólares que faltava e selarem o compromisso de que não poderia contar a ninguém o corrido no dia 28 de Janeiro.
Quanto às cinco casas inicialmente anunciada, na pronúncia não consta se as mesmas foram entregues e qual terá sido a justificativa apresentada por Florentino dos Santos aos demais.
Segundo informações prestadas pelos peritos da Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC), aquando da realização de uma conferência de imprensa para anunciar a detenção de dois dos integrantes da quadrilha, eles fugiram para o interior do país tão logo se aperceberam que estavam entre os suspeitos.
O jovem Missinda, o presumível autor do disparo mortal, foi surpreendido algures na província do Moxico, onde se encontrava escondido das forças policiais, tendo o seu comparsa sido detido na província da Huíla, onde acreditavam, na altura, estar também os restantes.
De acordo com a pronúncia, depois de algum tempo, o cidadão Florentino voltou a procurar o seu amigo, mas desta vez com o objectivo de pedir-lhe que o levasse ao quimbandeiro que os havia tratado, porque pretendia desfazer um feitiço que recebeu no exterior do país.
Já no local e num clima de conversa amena, Carlos Missinda questionou o seu companheiro de longa data sobre a razão de ter procurado os seus préstimos para pôr fim à vida de Eurídice Cândido, e este ter-lhe-á respondido tê-lo feito a pedido do seu irmão José Maria dos Santos, que até então exercia o cargo de governador da cidade de Luanda.
Ao tomar conhecimento do cargo que ocupa o “real” mandante deste crime hediondo, fazendo fé nas informações que recebeu, Carlos Missinda terá procurado o Filó e exigido o pagamento de 30 mil dólares e uma casa no projecto habitacional do Panguila em troca do seu silêncio. Caso contrário, iria denunciá-los às autoridades policiais.
Com o passar do tempo e ao ver que as suas exigências estavam longe de serem satisfeitas, presumindo estar a correr perigo de vida optou por contar os detalhes da morte de Eurídice Cândido. Assegurou que caso alguma coisa lhe acontecesse, os seus autores seriam o então governador e o seu irmão. Algum tempo depois, Carlos Missinda deu entrada no Hospital do Prenda doente, em estado grave e acabou por sucumbir.
Para aclarar o que terá causado a sua morte, a procuradora Emenajada Verdeira requereu ao Tribunal que solicite à direcção do referido hospital que disponibilize o relatório médico ou o resultado da autópsia a que o malogrado foi submetido. O requerimento foi aceite.
 
 
Perfil da vítima
Ao fazer a leitura da pronúncia, o juiz-presidente descreveu a ex-funcionária da direcção de Créditos a Particulares e Negócios do Banco de Fomento Angola (BFA), Eurídice Cândido, de ter sido uma pessoa ambiciosa que gostava muito de dinheiro.
Ela é descrita como tendo sido bastante violenta, tendo chegado ao ponto de agredir fisicamente a senhora Teresa Cristina dos Santos e Santos, esposa do então governador, e uma jovem com quem ele mantinha uma relação amorosa.
De acordo com o juiz, a malograda afirmou por diversas vezes que o seu ex-companheiro tinha alguém a vigiá-la e sustentava esta acusação com o facto de ele ter telefonado para ela, diversas vezes e descrito com precisão a forma como estava vestida, mesmo não se encontrando por perto.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Defesa: Advogados preparam-se para recorrer da sentença


Advogados Jo´se Carlos e Sérgio Raimundo, os dois homens fortes da instância de defesa dos 21 efectivos da Polícia acusados de homicídios e furtos. 

A equipa de advogados dos oficiais do Comando Provincial da Polícia de Luanda envolvidos no Caso Quim Ribeiro, liderada por Sérgio Raimundo, está a tentar reunir provas materiais para recorrerem da sentença que será proferida pelos juízes que conduzem o processo, apesar de o julgamento conduzido pelo juiz-presidente do Supremo Tribunal Militar, tenente-general Cristo Alberto, ainda estar a decorrer os seus trâmites legais, na Base Naval da Ilha de Luanda, e sem qualquer data para o seu fim.
Como prova disso, o advogado Sérgio Raimundo consignou na acta vários protestos para efeito de recurso, enquanto a testemunha-chave esteve a prestar declarações a sua instância, pelo facto de o juiz-presidente a ter proibido de responder a várias questões. Durante a audiência, desta segunda- feira, 19, o defensor não hesitou em agir deste modo, ao ver frustrada a sua tentativa de obter informação sobre a agenda da reunião ocorrida a 14 de Agosto de 2009, em que alguns dos seus clientes estiveram presentes, por decisão do juiz Cristo Alberto. Na esperança de convencer o juiz a agir de modo contrário, o defensor dos réus declarou ser de “suma importância que o depoente a respondesse porque, em função dela seriam postas outras questões que poderiam contribuir para a descoberta da verdade.
Mesmo assim, o magistrado usou da faculdade que lhe é conferida por lei para impedir que a mesma fosse respondida por considerar que não era relevante. “Ilustre advogado, esta pergunta não tem nenhuma relação com o caso em julgamento, sugiro que apresente directamente as suas questões e que a testemunha as responda do mesmo modo”, declarou.
Noutro momento, o advogado Sérgio Raimundo e pares viram novamente frustrada a tentativa de descobrir os nomes dos oficiais da Polícia que participaram numa reunião realizada no Comando Provincial, dirigida pelo então titular do cargo, comissário Quim Ribeiro. O tenente-general Cristo Alberto defendeu que a testemunha não responderia a esta questão por achar, novamente, que a mesma não estava relacionada com os factos em causa.
“Nós precisamos de saber quem são as pessoas que estiveram nesta reunião, porque pode ser que precisemos de os chamar para virem prestar declarações a este tribunal. Não vejo razão nenhuma para que a testemunha não responda a esta questão quando já passaram por esta sala pessoas que não sabiam nem sequer a sua data de nascimento”, protestou.
De forma calma e serena, o juiz-presidente reafirmou a sua posição e esclareceu que apesar de o defensor ter afirmado que estaria impedido de fazer outras questões sobre a reunião do dia 14 de Agosto, as perguntas que fez a seguir estavam relacionadas com aquela. “O senhor deve fazer questões que estejam directamente relacionadas com o caso em julgamento, e não outras”.
Ao ouvir os esclarecimentos do magistrado judicial, o ilustre causídico optou por consignar novamente na acta um protesto para efeitos de recurso. Na semana passada, os defensores dos réus registraram mais de seis protestos para com o mesmo pretexto por não terem conseguido obter a autorização do magistrado judicial, de modo a que testemunha respondesse às suas questões.
Augusto Viana reafirmou ainda, em declarações a instância de defesa, que o então comandante provincial de Luanda o ordenou que omitisse a informação sobre apreensão do dinheiro apreendido pelo seu efectivo em casa do funcionário do Banco Nacional de Angola (BNA), Fernando Gomes Monteiro. Na tentativa de “arrancar” da testemunha, que passou de réu a declarante, alguma informação que pudesse ilibar os seus clientes, Sérgio Raimundo questionou se declarou no relatório diário que é enviado ao Comando Provincial ou fez alguma informação especial, mas obteve um não como resposta.
À semelhança do que aconteceu à instância do procurador Adão Adriano, o depoente explicou que não o fez por ter sido informado por um dos especialistas da Direcção Provincial de Investigação Criminal, até então destacado no Comando da Divisão de Viana, que o comissário Quim Ribeiro ordenou que agissem deste modo. Questionado ainda porque acatou esta orientação, mesmo sem a ter recebido directamente do comandante provincial e sabendo que era contra as regras, respondeu que não teve dúvidas nenhuma de onde partiu por saber que existe uma separação entre as actividades dos especialistas de investigação e do comandante de divisão.

Caso Quim Ribeiro: Viana reencontra “documentos falsos” enviados à PGR



Augusto Viana, a testemunha chave do julgamento de 21 polícias acusados de assassinatos e roubo.

O superintendente Augusto Viana Mateus, a chamada “testemunhachave” do Caso Quim Ribeiro, identificou a existência de uma declaração que diz ser falsa e que terá sido anexada aos autos do processo que corre os seus trâmites legais no Supremo Tribunal Militar (STM) para ilibar os réus de qualquer responsabilidade nos crimes de que são acusados.
O juiz-presidente do STM, tenente-general Cristo Alberto, solicitou, durante a audiência desta quintafeira, 22, ao antigo comandante da Divisão de Viana que analisasse se existia alguma semelhança entre uma das peças processuais, em função das denúncias que fez à instância do Procurador-adjunto da República, Adão Adriano.
Comissário Quim Ribeiro, ex-comandante de Luanda.
Na ocasião, anunciou que o antigo comandante provincial de Luanda, comissário Quim Ribeiro (na foto), lhe havia ordenado que queimasse a fotocópia do auto de apreensão dos bens encontrados em casa do funcionário do BNA, Fernando Gomes Monteiro, testemunhando um milhão e 800 mil dólares, dois automóveis e vários documentos. O que fez, em obediência ao estipulado no regulamento da corporação.
A testemunha contou ainda que guardou consigo o exemplar por ter achado estranha a postura do seu superior hierárquico, ao orientá-lo para que omitisse os resultados desta acção no relatório operacional que diariamente é enviado ao Comando Provincial e nem sequer fizesse uma informação especial. “Esclareça a este tribunal se o documento que o senhor reiterou aqui diversas vezes é o mesmo que o senhor acabou de ver”, pediu o juiz, depois de ter concedido alguns minutos para que a testemunha o averiguasse, tendo este respondido positivamente.
Ao ser questionado sobre a forma como o documento foi parar em suas mãos, Augusto Viana alegou que o recebeu das mãos do antigo director provincial de Investigação Criminal de Luanda, António João, a mando do comissário Quim Ribeiro, para que fizesse constar nos documentos que seriam enviados à Procuradoria- Geral da República. Ao ouvir o seu nome a ser pronun- ciado pelo seu colega, o réu António João começou a sorrir de forma camuflada, abanando a cabeça, como se estivesse a reprovar as declarações que ouvia, enquanto conversava com um dos seus companheiros.
O juiz questionou se desde a altura em que encaminhou o milhão e 800 mil dólares à DPIC, sob orientação do comissário Quim Ribeiro, isto é, de Agosto a Outubro, o mesmo se manteve intacto, respondendo que não conseguiria precisar porque havia deixado de estar sob o seu controlo. “Qual foi a justificativa que te apresentaram na altura em que recebestes os 75 mil dólares?”, questionou o juiz.
Demonstrando claramente que não estava preparado para responder a está questão, Augusto Viana contou que o mandatado do antigo comandante o esclareceu que a mesma serviria como estimulo pela qualidade do serviço que tem prestado. “O senhor António João explicoume que estava a ser agraciado com os 75 paus (75 mil dólares) pela forma como controlava a situação operativa naquele município”, justificou a testemunha.
Esquecendo que havia declarado, três dias antes, isto é, na segundafeira 19, (enquanto respondia a instância de defesa) que na qua lidade de comandante municipal não exercia nenhum poder sobre os membros do departamento de investigação criminal, porque tratava apenas da Ordem Pública.
O que levou facilmente os familiares dos réus que estiveram presentes na sessão anterior a concluírem que a testemunha estava a faltar à verdade, ao declarar que recebeu parte dos três milhões e 700 mil dólares surripiado do Banco Nacional de Angola (BNA), mas não puderam protestar com receio de serem “severamente” punidos pelo Tribunal, fazendo fé nas diversas advertências feitas pelo juiz-presidente.

Identificação das viaturas
Na esperança de obter mais pormenores sobre a quantidade de viaturas e o número de efectivos que participaram na operação de busca e apreensão realizada em casa de Fernando Gomes Monteiro, funcionário do BNA, o juiz questionou se tinha conhecimento da marca do meio rolante usado.
Ele respondeu que tivera sido informado que foi apenas uma viatura de marca Toyota Rav4 de um dos intervenientes, com o qual já havia andado em outras ocasiões, mas que com o andar do tempo, em face das investigações que realizou, descobriu que também dispuseram de um patrulheiro da Polícia. “Já alguma vez viu na unidade ou nos arredores uma viatura de marca Toyota Corola, vulgo rabo de pato, com os vidros fumados e escrito no vidro traseiro luto?”, questionou o magistrado judicial e Augusto Viana respondeu negativamente.
Por outro lado, Cristo Alberto questionou por que razão desenvolveu uma investigação paralela, e este respondeu, esclarecendo os seus motivos: “Na altura em que foi chamado a prestar declarações à PGR e ao Departamento de Inspecção do Ministério do Interior notei que eles tinham mais informações do que eu que até então exercia o cargo de comandante da divisão, por isso, decidi ouvir o efectivo”, justificou.
Ao ser indagado sobre a participação do sub-inspector Carlos Albino Ukuama, de 41 anos, o declarante afirmou que ficou surpreso ao aperceber-se que o mesmo estava arrolado no processo por acreditar que ele pertencia a 44ª Esquadra, mas com o passar do tempo descobriu que estava enganado porque ele pertencia a 48ª Esquadra.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Candidatos à docência preferem zonas rurais

Determinadas a candidatar-se a uma das 596 vagas disponíveis na Direcção Provincial de Educação de Luanda no âmbito da admissão de professores do Iº ciclo do ensino secundário diplomado, as jovens Etilasia Mateus e Sílvia Panda, saíram das suas residências (no Morro Bento) por volta das 8horas da manhã de quarta-feira, 25, com destino ao município da Quimassama.
Depois de terem percorrido de táxi e autocarro a distância entre o seu bairro e o desvio para a Quissama, em Cabo Ledo, começaram a trilhar a pé, sem saber que o percurso lhes reservava 125 quilómetros até à sede no novo município de Luanda.
Percorridos cerca de três quilómetros, as candidatas, que estavam trajadas de roupas e calçados adequados para este tipo de empreitada, solicitaram boleia a um automobilista que por ali circulava, mas receberam um não como resposta. Mesmo assim, a ânsia de conseguir um emprego no Estado falou mais alto e prosseguiram com a marcha, alimentando-se de bolachas de água e sal e saciando a sede com àgua, o líquido precioso que se encontrava num pequeno recipiente. Até que apareceu um outro automobilista que se disponibilizou a ajudá-las. Ao notarem que o relógio marcava 15horas, as peregrinas interiorizaram a possibilidade de não conseguirem inscrever-se no mesmo dia e optaram por montar uma nova estratégia de permanência no local até ao dia seguinte.
Segundo conta Etilasia Mateus, esta possibilidade foi descartada ao chegarem ao destino pelo facto de terem encontrado a repartição municipal da Quissama em pleno funcionamento, às 17horas e 25 minutos devido à visita surpresa que o director provincial de Luanda efectuou àquela localidade.
“Mesmo assim não conseguimos fazer a inscrição porque só estão a seleccionar aquelas pessoas que frequentaram as escolas especializadas na formação de professores e nós fizemos o curso médio de ciências exactas”, disse, com um ar de tristeza. Acrescentando, de seguida, que “tentámos ainda convencer a funcionária daquela repartição que ficasse com a nossa documentação, visto que os seus superiores podem vir a mudar de ideia, caso a quantidade de candidatos especializados no ramo da docência sejam inferior à oferta”.
No anúncio de abertura de concurso público para ingresso divulgado na edição do Jornal de Angola nos dias 17 e 18 de Abril, consta, entre os vários requisitos exigidos aos candidatos que pretendem leccionar no Iº ciclo, o curso médio de formação de professores ou equivalente.
Acreditando que o equivalente se referia ao ensino pré-universitário, as nossas interlocutoras pensaram que poderiam concorrer em pé de igualdade com os outros candidatos.
Sílvia Panda é de opinião que muitos dos requisitos exigidos neste tipo de concurso público acabam por ser um obstáculo àqueles que têm vocação para a docência, mas que por não terem conseguido ingressar numas das Escolas de Formação de Professores (ex-Instituto Normal de Educação) acabaram por se formar noutra área.
“O Governo deve ter em conta que, durante a época de conflito, a maior parte das pessoas não tinham condições para escolher os locais para estudar. Algumas pessoas que sonhavam em ser docentes e tinham vocação para tal acabaram por fazer electricidade, mecânica, contabilidade e aqueles que planeavam formar-se nesta área acabaram por estudar nos INE`S”, defendeu.
Para ela, a exigência da entrega dos certificados originais no momento da inscrição não é uma das medidas mais acertadas porque o mesmo é posto no balde de lixo, quando os júris desclassificam o candidato. O que resulta em perda de dinheiro pelo facto de as escolas exigirem o pagamento de uma taxa para emitir os certificados, enquanto que isso pode ser evitado com a entrega de fotocópias autenticadas dos certificados.
Apesar das disparidades socioeconómicas que existem entre aquele Município e o de Belas, ambas foram unânimes em afirmar que estão interessadas em trocar a vida agitada da cidade grande pela rural. Nem sequer ficaram surpreendidas com as condições que ali encontraram.
De acordo com informações a que o Tribuna da Kianda teve acesso, a repartição da Educação da Quissama tem maior carência de professores nas cinco comunas e os docentes admitidos nos concursos passados que foram enquadrados nestas áreas acabaram por desistir devido às condições sociais.
“Como o Executivo está a desenvolver um grande esforço para reabilitar as vias de acesso às localidades mais recônditas, certamente que as comunas que ficam isoladas da sede quando há grandes enxurradas terão este problema resolvido”, disse uma fonte afecta àquela secção de Educação.
Defendeu ainda que os candidatos só passaram a acorrer em massa àquele local, por causa das dificuldades que encontraram nos postos de inscrição próximos do centro da cidade.
A Quissama possui uma população estimada em 22 .308 habitantes, que se dedica à agricultura de subsistência, caça e pesca artesanal. Está localizada a cerca de 150 quilómetros a nordeste de Luanda.