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quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Vitória de Luís Domingos

O jornalista Luís Domingos marcou a vida de muitos angolanos não só pelas suas reportagens sobre a guerra no nosso país, emitidas pela Televisão Pública de Angola (TPA) ou pela forma como organizou o programa “Ponto de Encontro”, mas também pela disponibilidade de acolher no seu seio familiar a única sobrevivente do bombardeamento à cidade do Andulo, província do Bié.
O ex-repórter de guerra conheceu a menina na altura em que foi enviado para cobrir a ocupação daquela parcela do território nacional até então sob domínio dos guerrilheiros das Forças Armadas para a Libertação de Angola (FALA), braço armado da Unita.
Luís Domingos encontrava-se sentado num dos muros da residência do general Nguto, quando reparou num militar que levava a criança com graves ferimentos na cabeça. Ao questionar sobre a sua identidade, o jornalista foi informado que a pequena, que aparentava ter apenas três anos de idade e que não conseguia falar, era a única sobrevivente que encontraram dentro da cidade.
“A ferida já estava verde e como os militares não sabiam o que fazer porque estavam no meio de uma guerra, decidi trazê-la a Luanda para, pelo menos, ser assistida numa das unidades hospitalares”, contou.
Com o tempo que permaneceu naquele local, o jornalista esqueceu a responsabilidade que assumiu e só recordou graças a um soldado que foi a criança ao aeroporto no momento em que se preparava para embarcar para a capital do país.
Ao chegar ao Hospital do Alvalade, actual Clínica do Alvalade, ligou para a esposa que não hesitou em acolher a menina em sua residência após receber alta.
“A primeira ideia era levar a Vitória para um lar depois da ferida sarar, só que o tempo de convivência fez com que passássemos a considerá-la como um membro da nossa família e decidimos ficar com ela”, frisou.
Questionado sobre a forma como decorreu o processo de adopção, o nosso interlocutor recorreu aos princípios que aprendeu na Igreja Católica para explicar que teve muito cuidado neste sentido, visto que a menina precisava de documentos para poder estudar. Para evitar constrangimentos, o casal registou e baptizou a criança mas deixou em branco o espaço do nome do pai e da mãe para quando ela tiver 18 anos, poder decidir se os aceita como seus pais. Como desconheciam a data de nascimento da menina, Luís Domingos achou por bem atribur a data de aniversário da TPA, 18 de Outubro, como dia do nascimento. A aparência física da menina levou-os a concluir que devia ter três anos de idade e registaram-na com o nome de Vitória Suala.
“Pelo facto de ela ter sobrevivido aos bombardeamentos de armas muito pesadas, inicialmente achei que devia dar-lhe o nome de Vitória do Andulo, mas, depois, concluímos que seria melhor mudar para Vitória Suala (que significa sacrifício numa das línguas nacionais) porque, caso contrário ela recordaria sempre que fosse questionada o porquê deste nome”, enfatizou.
No entanto, como a Vitória está actualmente com 14 anos, Luís Domingos pretende contar a sua verdadeira história quando atingir a maioridade. Depois dela decidir se os aceita como seus pais irão à Conservatória e à igreja preencher os espaços em branco.
O jornalista, que actualmente ocupa um dos assentos da Assembleia Nacional, justificou a sua acção alegando que há uma tendência muito grande para as pessoas adoptarem crianças porque querem ter um empregado e não por amor.
“Naturalmente e pela especificidade do processo, eu sou o pai dela, visto que ela não conhece outra pessoa e nunca ninguém lhe disse o contrário. Mas imagino que, se assim acontecer, ela poderá reagir muito mal porque nós nos tratamos como pai e filha”, explicou.
Acrescentou de seguida que “a Vitória não conhece a sua história e quando lhe mostro a fotografia dela ferida nas mãos dum militar e lhe digo que estava no Andulo, acaba por chorar porque, certamente, é algo que não lhe faz bem”.
Marcas da guerra O deputado à Assembleia Nacional julga acreditar que ela ainda guarda uma vaga lembrança de tudo o que aconteceu, apesar de ter ocorrido numa altura em que era criança. Mas recusa aceitar que é ela quem está na fotografia.
“Ela é muito vaidosa e aquela imagem não é nada agradável. Se as pessoas olharem para ela agora e compararem o estado em que ela se encontrava, poderão ver que ela tem razão de agir deste jeito. Considero ser gratificante vê-la crescer bem e com saúde, embora seja um pouco fraca na escola supostamente devido aos ferimentos”, justificou.
Luís Domingos explicou que a menina não teve dificuldades em se adaptar ao seu ambiente familiar e que os seus filhos a receberam bem, depois de terem sido sensibilizados com a ideia de que estariam a ajudar uma criança que perdeu os seus parentes na guerra.

2 comentários:

Maria Madalena disse...

Oi Luís Domingos, td bem contigo? estive a ler o teu blog que o localizei por acaso, porque fiquei com a curiosidade de ver imagens actuais da menina Vitória, então fui ao Google e escrevi Vitória Andulo e fui dar ao teu blog porque lembro-me bem dos acontecimentos passados e das imagens daquela altura. Sei que a adoptaste, (foi um gesto muito lindo de tua parte), eu teria feito o mesmo. Será que podias publicar umas fotos dela? Obrigado

PAULO SERGIO disse...

Fico muito feliz em saber que existem pessoas interessadas em ver imagens actuas da Vitória. Este blog não pertence ao jornalista, deputado e professor universitário Luís Domingos, mas sim ao jornalista Paulo Sérgio.
Na esperança de poder ajuda-la, vou solicitar ao pai da Vitória, o LD, é claro, que desponibilize alguma fotografia dela para publicar neste espaço.