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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Restam 12 do ‘Processo dos 50’



Os presos de Missombo, Kibaixi, São Nicolau I, II e III, sofreram as maiores incisões, revelam os nacionalistas



O presidente da Associação dos Sobreviventes do Tarrafal, Beto Van-Dunem, revelou a O PAÍS que apenas 12 dos quarenta e sete nacionalistas julgados no “Processo dos 50” estão vivos. Deste número, nove residem em Angola e três em Portugal.
Por motivos de saúde, a cerimónia de homenagem aos sobreviventes deste processo, realizada nesta segunda-feira, 30, organizada pelo Arquivo Histórico Nacional, contou com a presença de apenas quatro deles, nomeadamente Amadeu Amorim, Beto Van-Dunem, Roberto Fialho e João Lopes Ferreira. Os dois últimos, mesmo assim não puderam participar activamente por se encontrarem debilitados.
Apesar de a Associação não possuir instalações próprias, os membros reúnem-se semanalmente e o seu presidente, Beto Van-Dunem, mostrou-se bastante esperançado em que o Estado venha a disponibilizar, nos próximos tempos, um espaço para instalarem a sua sede.
“Estamos a envidar todos os esforços necessários para termos instalações próprias e meios de transporte, para podermos empregar algumas pessoas para trabalharem connosco”, frisou.
Actualmente, para além dos 12 sobreviventes do “Processo dos 50”, a Associação congrega ainda os seus familiares.
A cerimónia, que contou com a participação de pesquisadores e antigos presos políticos de várias gerações, serviu para cada um deles, à sua maneira, dar o seu testemunho daquilo que foi a vivência na cadeia do Tarrafal.
O nacionalista Roberto de Almeida revelou que os integrantes do “Processo dos 50” não foram os primeiros detidos, porque antes da Polícia de Intervenção e Defesa do Estado (PIDE) se instalar em Angola, em 1957, já havia presos políticos. Mas o facto de ter sido detido um número elevado de pessoas ao mesmo tempo, provocou uma grande repercussão quer a nível nacional como internacional, o que serviu para chamar a atenção sobre a situação política que se vivia no país. “Normalmente só se fala na Casa de Reclusão, mas antes de alguns presos políticos serem levados para o Tarrafal ficaram detidos na 7ª esquadra, actual Unidade Operativa de Luanda”, contou.
Relativamente aos métodos de coerção utilizados pela PIDE, Roberto de Almeida relatou existirem dois muito utilizados e que destroçaram a resistência da maior parte dos nacionalistas, designadamente, a estátua e a tortura do sono. “A polícia portuguesa punha as pessoas de pé, dias e noites seguidas, sem poderem mudar de posição, dormir ou comer e isso rebentava com a resistência deles.
Acabavam por desmaiar e depois revelavam o nome dos seus companheiros”.
Embora não tenha feito parte do grupo de nacionalistas julgados no “Processo dos 50”, Lopo do Nascimento explicou que o sistema de compartimentação, organização e informação era muito fechado e cada um tem a sua verdade, por isso fica surpreendido quando vê pessoas a relatarem os acontecimentos como se fossem uma verdade completa.
Naquela época, segundo os intervenientes, os angolanos não estavam ligados a questões ideológicas, todos cooperavam com todos, mesmo sem pertencerem a uma estrutura orgânica, por isso a polícia colonial procurou identificá-los através de listas de grupos, designando-os como; processos dos pretos protestantes, dos mestiços católicos e dos brancos comunistas.
“No julgamento dos pretos, isto é, do primeiro grupo, as sentenças foram maiores. Embora quisessem sancionálos, esta acção denunciou um dos pontos fracos de Portugal, que foi o reconhecer perante a comunidade internacional que existiam angolanos que não estavam de acordo com a sua política”.
Por seu turno, Alberto Correia, integrante do último grupo de angolanos presos na cadeia do Tarrafal, revelou que nas cadeias angolanas onde estavam detidos milhares de políticos, registaram-se incisões mais profundas e dolorosas, em alguns casos maiores que na cadeia cabo-verdiana, designadamente, nas de Missombo, Kibaixi, São Nicolau I, II e III, entre outras. “Nessas cadeias se fez sentir profundamente a saga assassina do colonialismo português” avançou.
Os participantes no encontro mostraram-se bastante preocupados com a falta de publicação de obras de pesquisadores angolanos, que revelem o que realmente aconteceu aos milhares de nacionalistas que lutaram pela independência nacional.
E notaram que alguns livros publicados pelos colonizadores trazem informações deturpadas.
Respondendo a esta preocupação, a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, revelou que enquanto directora do Arquivo Histórico Nacional, dirigiu várias entrevistas que foram feitas aos 47 nacionalistas do “Processo dos 50” que constam na lista de Mário Pinto de Andrade publicada em Bruxelas.
“Conseguimos alcançar tanto os nacionalistas que estavam em Angola como no exterior. Entre eles podemos destacar um sobrevivente que residia no Namibe e que acabou por falecer depois de nos conceder a segunda entrevista”, rematou.
No entanto, Rosa Cruz e Silva esclareceu que “pretende-se com essas acções chamar a atenção dos pesquisadores e estudiosos para que esta época da história recente, ainda tão desconhecida mas tão rica de acontecimentos, que merecem análises profundas para descodificar factos, trazendo à luz do dia conhecimentos que, certamente, justificam as acções destes nacionalistas”.
A cerimónia de homenagem aos integrantes do “Processo dos 50” sob o lema “Março de 59 – Março 2009, entre papéis, sigilos e prisões. Uma reflexão histórica sobre a actividade clandestina dos nacionalistas nas décadas de 50 e 60”. Beto Van-Dunem aproveitou ainda a ocasião para anunciar que realizar-se-á, de 29 de Abril a 1 de Maio, no campo de Tarrafal, em Cabo Verde, um simpósio que reunirá todos os ex-presos políticos que lá estiveram para relembrarem os acontecimentos e manifestarem que estão de acordo com o destino que o Governo cabo-verdiano quer dar ao local.
Fonte: O País

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