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segunda-feira, 12 de março de 2012

Roberto Saviano: jornalista jurado de morte por ter escrito sobre a máfia Italiana

"Escritor maldito", que vive escoltado 24 horas por dia devido à ameaça da Camorra, falou ontem sobre a máfia em Santa Maria da Feira.

Fonte: Diário de Notícias


Sente falta das coisas banais, como sair para beber um copo, passear, não pode sequer ir ao supermercado sozinho. Vive "uma não vida", onde tudo é preto ou branco, sem espaço para a diferença.
Com a publicação do livro Gomorra, em 2006, ganhou prémios, elogios, vendeu milhões de livros, mas é-lhe impossível sentar-se numa esplanada com o sol a bater-lhe nas costas. A máfia napolitana não perdoa a Roberto Saviano a dissecação do seu império económico e jurou-lhe a morte.
Em Portugal, soube o DN, pôde saborear um pouco das coisas simples da vida. Na sua mais recente visita às terras de Camões, ainda que escoltado, esteve em Lisboa a comer os famosos pastéis de Belém. No Porto, a cerca de 30 quilómetros de Santa Maria da Feira, onde esteve para falar de "máfia e mercado global", sentiu-se "em casa". "A sua geografia faz-me sentir como se estivesse numa cidade da minha terra", disse.
Nada é simples. Com apenas 29 anos, é um “escritor maldito”, perdeu amigos e namorada, a família afastou-se, muda constantemente de casa e a única companhia são os cinco seguranças que o acompanham 24 horas por dia. Por isso as suas primeiras palavras foram para agradecer a discrição com que foi escoltado pelas autoridades portuguesas, o que lhe permitiu sentir-se um pouco mais livre, normal. "Fico muito agradecido. Em França e Espanha fazem-no com muita ostentação."
Antes de começar a falar, coça a cabeça rapada, gesto nervoso que repete várias vezes. A apenas três dias de completar 30 anos. Roberto Saviano não consegue disfarçar que se tornou um homem tenso. Tem aquele ar de mafioso já muitas vezes descrito pelos órgãos de comunicação, olhos penetrantes, frequentemente distantes, mas que sorriem de volta quando é interpelado pelos participantes no simpósio.
Veste de negro, camisa branca. Rói discretamente as unhas, mexe as mãos enquanto fala, repete inúmeras vezes o gesto de levar o dedo às têmporas. Ao longo de todo o encontro, vai recebendo e enviando sms, uma das poucas formas de contacto com os que lhe são próximos. No final de cerca de quatro horas de conversa, sai do auditório para uma sessão de autógrafos, sempre rodeado pelos discretos seguranças cuja presença não se faz notar.
Quando Renzo Barsotti, o organizador, decidiu que este ano o simpósio versaria a "necessidade quase imperiosa do sistema capitalista de ter espaços obscuros onde as organizações criminosas pudessem actuar", o primeiro nome que lhe veio à cabeça foi o de Roberto Saviano. Já este, sabe que "para o público português é muito estranho que alguém possa ser condenado à morte por escrever um livro. A máfia napolitana [o Sistema, como lhe chamam os membros dos clãs, e não Camorra, um termo policial usado por juízes, jornalistas e guionistas] "não tem medo de mim, do que eu escrevo, tem medo dos meus leitores". "Milhões de leitores [como é o caso de Gomorra, que já vendeu mais de três milhões de cópias em Itália e foi traduzido em 53 países] significa que se está a dar atenção a estas dinâmicas e, isto sim, faz-lhes medo", diz o escritor e ex-jornalista.
Com Salman Rushdie, outro escritor que teve a vida sob um fio, aprendeu que "é muito difícil viver numa situação assim e continuar livre por dentro". Pior do que a censura, diz, é a indiferença. A Camorra é uma organização que factura cem milhões de euros por ano, uma das que mais influência tem nos mercados internacionais, e "estas notícias não são censuradas pelos jornais" mas nem sempre se lhes dá importância.
O napolitano diz não ser fácil falar sobre organizações criminosas italianas noutros países por ser uma realidade aparentemente distante destes, mas "a União Europeia está cheia de capitais mafiosos". "Contar pode significar sonhar com uma mudança, pode ajudar outros países a perceber onde é que os traficantes estão a investir, o que é que está a acontecer". "Escrever, significa dar confiança ao poder da palavra", ainda que tenha sido este a atirá-lo para um limbo onde "há a constante sensação de viver pela metade ou de estar morto pela metade".

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