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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Polícia acusada de matar três jovens no Benfica

O segundo comandante-geral da Polícia Nacional para a Ordem Pública, Paulo de Almeida, revelou esta terça-feira 18 em Luanda, que existem fortes indícios que apontam para que o homicídio dos jovens Kléber Teodoro, 25 anos, Hamilton Kadu, 21 e Willian Luís “Liro Boy”de 19, na comuna do Benfica, na madrugada de segunda-feira 11, tenha sido praticado por oficiais da Corporação destacados naquela zona.
Paulo de Almeida explicou na conferência de imprensa que os investigadores estão a trabalhar para descobrir as razões que levaram os suspostos agentes da Polícia a praticarem este crime.
A avó paterna dos malogrados Kadu e Liro Boy” explicou que os dois primos não moravam com ela e que o primeiro se deslocara à sua casa com o intuito de passar o fim de semana em sua companhia. Já o segundo apareceu no domingo acompanhado da sua esposa e do filho que estava doente.
Além de primos, os dois rapazes que viviam permanentemente em conflito, partilhavam ainda o facto de serem órfãos de pai e cresceram entre a casa das suas mães e das avós. Por sua vez, Kléber Teodoro, o mais velho dos jovens assassinados, saiu de Angola com destino à Zambia com sete anos de idade.
Depois seguiu para o Zimbabwe onde concluiu o curso superior de informática e recentemente decidiu regressar à sua terra natal.
Apesar da pouca idade que tinha e da falta de possibilidade para ingressar no ensino médio, Kadu decidiu abandonar a residência da sua avó e refugiar-se em casa da mãe na Vila Clotilde, onde montou uma pequena oficina de motorizadas e só se deslocava ao Benfica quando tivesse a confirmação de que Liro Boy não se encontrava lá, segundo os familiares.
A avó dos jovens contou que, contrariamente ao suposto marginal, que só passou a noite naquele local porque a sua esposa, Madalena de Oliveira “Pick” insistiu por causa do estado em que a criança se encontrava, Kadu decidiu permanecer também no mesmo local para não fazer uma desfeita ao pedido da ‘cunhada’.
Por falta de quartos, o casal foi acomodado em cantos separados na sala, ao passo que o filho, o pequeno Anderson Luís, dormia numa coberta estendida logo à entrada.
Enquanto isso, Kadu ficou nas proximidades de uma janela que se encontra num outro extremo.
Angelina Diogo detalhou que os presumíveis autores do crime apareceram por volta das 3 horas da manhã, em duas viaturas de marca Toyota Hilux, trajados de roupas escuras e botas da Polícia Nacional, com os rostos cobertos com capuchinhos. Antes de darem a conhecer que estavam presentes naquele local, os agentes saltaram o muro do quintal e começaram por importunar os estudantes bolseiros que vivem nos anexos da casa.

Ao aperceber-se que o imóvel estava cercado por um grupo de indivíduos, que se apresentaram como sendo efectivos da Polícia, a avó dos jovens facilitou o acesso destes ao interior da casa e ordenou a Liro Boy que se apresentasse para acabar com o incomodo que estava a ser causado com a presença deles. “Eles já conheciam o Liro, porque no momento em que o meu neto Kadu abriu a porta estávamos todos em pé. A única pessoa que eles agarraram logo de imediato foi a pessoa que procuravam”, contou a anciã.
Depois de retirarem o presumível autor de inúmeros assaltos e homicídios ocorridos na via pública, levaram-no à força e sob fortes pancadas para o automóvel. E partiram. Mas regressaram minutos depois, provavelmente em função de algo que lhes terá sido transmitido pela pessoa que transportavam e exigiram que Kadu também se fizesse presente.
Segundo a anciã de 64 anos, o seu neto dizia ser inocente e que não tinha nada a ver com os crimes cometidos por Liro Boy, mas os supostos agentes da Polícia não quiseram saber do seu pedido. Espancaram-no e um deles manipulou a arma que transportava porque viram que não conseguiriam retira-lo sem recorrer a este meio.
“As pessoas que lá se encontravam juntaram-se em coro clamando a inocência de Kadu”, contou a avó.
Os familiares dos jovens tentaram acompanhar os polícias, mas estes protestaram ameaçando com a arma de fogo para travarem a marcha daqueles. Diante desta situação, preferiram aguardar que amanhecesse e rezar para que nada de mal lhes acontecesse.


A última oportunidade de Liro
Alguns dias antes de morrer, o jovem Wilian Marques Luís “Liro Boy”, de 19 anos, havia recebido uma bolsa de estudo que lhe foi atribuída pela igreja Católica para frequentar a nona classe na escola Martires do Uganda.
Segundo o administrador da instituição, Edivaldo Pinto, o malogrado que passava a noite no Futungo, havia manifestado que estava arrependido dos crimes que cometeu e solicitado ajuda ao padre que exerce o cargo de director da escola e do centro de reabilitação social.
“Ele mostrava-se bastante feliz por estar a frequentar a nona classe no nosso estabelecimento do ensino e, à luz da bolsa, tinha o direito de receber mensalmente um valor monetário para sustentar os seus estudos”, explicou.
Apesar de estar a frequentar as aulas apenas há cinco dias, ao tomarem conhecimento da morte do jovem, a direcção daquela instituição de ensino cumpriu com os rituais que todos os estudantes têm o direito que é colar a fotografia dele na parede para dar a conhecer aos seus colegas.
Os parentes de Kadu e Liro Boy tiveram a confirmação que ambos estavam mortos, a partir de umas das filhas de Angelina Diogo que se dirigiu inconformada e aos delírios para a morgue. Ela contou que Liro foi o que mais tiros levou e algumas facadas no peito. Kadu e Kleber que não se conheciam foram mortos com dois tiros na cabeça e um nas costelas.
O comissário-chefe Paulo de Almeida referiu que o jovem Liro era de facto delinquente e que pesavam sobre ele várias acusações de delito. “O jovem Liro era bandido, mas isso não dá o direito a quem quer que seja de lhe tirar a vida. Ele deveria pagar pelos seus crimes mediante a sentença do tribunal. É isto que está na Lei e é isso que a Polícia devia comprir”, concluiu.

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