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terça-feira, 6 de abril de 2010

Polícia acusada de assassinar três jovens na Samba

Alguns oficiais da Direcção Municipal de Investigação Criminal do Comando Municipal da Samba são acusados de assassinar, nas primeiras horas do dia 19 de Janeiro passado, três jovens com idades compreendidas entre 19 e 20 anos, que residiam na zona do Morro da Luz.
Os jovens, que respondiam pelos nomes de Banjangola Fernando da Silva Zua, de 20 anos, e o seu primo Amilton Francisco da Silva Zua, de 19 anos, e outro identificado apenas por João, foram mortos no Golfe 2.
Os dois primeiros foram retirados das suas residências à força, por volta das 03h10, por um grupo de seis indivíduos armados com pistolas do tipo AKM.
Segundo Diniz da Silva Zua, pai do Amilton Zua, os invasores, que se apresentaram como sendo polícias, cercaram a casa e exigiram que o irmão mais velho Avelino da Silva Zua fosse abrir a porta para eles entrarem.
“Eles permaneceram cerca de 15 minutos a bater à porta e quando o meu irmão abriu, notou que eles estavam mascarados e que alguns deles trajavam roupas e calçados semelhantes aos utilizados pelos funcionários da Polícia Nacional”, contou.
Depois de retirarem Amilton Zua à força do seu leito, os invasores pediram ao João que os levassem ao quarto onde Banjangola Zua estaria a dormir em companhia da sua esposa que se encontra em estado de gestação.
“O João vivia ao lado da nossa casa com os seus pais, mas mudaram-se para as proximidades do campo do Inter Club há alguns meses. Como não conseguíamos obter nenhuma informação dos polícias perguntamos porquê os levou a nossa casa, só que não conseguimos obter nenhuma resposta porque refugiou-se no silêncio”, explicou Diniz Zua.
O silêncio dos invasores, a falta de um mandado de captura e o modus operandi dos efectivos levou as pessoas que estavam no interior da residência a concluírem que estavam diante do famoso “Esquadrão da Morte” que os mais altos responsáveis da corporação negam a sua existência. Este facto levou os familiares dos dois jovens a tentar evitar o pior, dirigindo-se algumas horas depois da retirada deles, para o Posto da Polícia Kapipa, por ser o mais próximo de casa, para informar as autoridades e procurar saber para onde os levaram.
Como não tiveram sucesso deslocaram-se à 8ª Esquadra. Neste local, foram encaminhados para a Unidade Policial do Kassiquel, onde foram aconselhados pelo Oficial de Dia a regressarem a casa porque não tinham nenhuma equipa no terreno.
Diante de tal situação, Diniz Zua não teve outra solução senão procurar a residência dos pais do João para ver se conseguia alguma informação. Para seu espanto, posto no local tomaram conhecimento por um dos parentes do guia que o mesmo estava desaparecido há três dias.
“Quando chegamos lá, isto é por volta das 13 horas, disseram-nos num dos tio dele que infelizmente ninguém podia nos ajudar porque o João estava morto numa das gavetas da morgue do Hospital Josina Machel.
“Fomos à casa mortuária, encontramos os corpos dos nossos filhos crivados de balas, ninguém sabia quem foram os executores e a única coisa que nos disseram é que tinham sido levados para lá pelo camarário da Polícia Nacional.” Foi assim que deduzimos que o mesmo teria acontecido com o meu filho e o meu sobrinho”, contou o nosso interlocutor que tentava a todo custo esconder a mágoa.
Ao passo que a sua esposa, Joana Fernandes não conseguiu conter a dor e pôs-se aos prantos ao ver a imagem do seu filho e ao ouvir o seu esposo a relatar a forma como ele foi retirado de casa.
“Depois disso, partimos para a casa mortuária onde encontrámos os corpos dos nossos filhos crivados de balas, ninguém sabia quem foram os executores e a única coisa que nos disseram é que tinham sido levados para lá pelo camarário da Polícia Nacional”, frisou.
De acordo com Diniz Zua, os três jovens foram encontrados mortos na zona do Neves Bendinha, junto ao quintalão da Brigada Especial de Trânsito (BET).

Sonhos desfeitos
Diniz Zua conta que o seu sobrinho trabalhava numa empresa de construção civil, como ajudante de pedreira e que vivia sonhando com a publicação de um disco musical do género kuduro, mas a morte acabou por meter fim a este sonho: “Ele tinha até um disco master gravado num estúdio amador e vivia a procura de patrocínio”, explicou.
No bairro, à semelhança do que acontece com as músicas dos kuduristas Negrelha e Bruno M, as canções de Banjangola Zua estão entre as que se ouviam pela vizinhança.
O que, para os familiares, era um sinal de sucesso absoluto e que de certeza levaria os luandenses à Praça da Independência assim que surgisse alguém disposto a financiar a produção da obra discográfica.
“Tínhamos um exemplar deste disco que ele gravou para distribuir aos possíveis compradores e que pensávamos guardar para mostrarmos ao seu filho que esta para nascer, mas acabamos por perdê-lo como resultado de um assalto que houve no dia em eles completaram um mês da morte”, contou.
Apesar de no momento em que a nossa equipa de reportagem se deslocou a casa dos jovens ter encontrado a esposa de Banjangola Zua, mas não foi possível ouvir o seu depoimento, como testemunha ocular, por ela estar em estado de gestação e requerer o máximo de descanso possível.
A história de vida de Amilton Zua é semelhante à de muitos luandenses que são obrigados a percorrerem longas distâncias para terem acesso a uma sala de aula.
O jovem que passou a residir a menos de seis meses com os seus pais na zona Samba, segundo Diniz Zua, estudava num Instituto Médio que esta localizado bairro da Petrangol.
“Como ele saía daqui todos os dias em direcção à escola, onde frequentava a 10ª classe, achei por bem fazer algumas economias para ver se conseguia matriculá-lo numa das escolas mais próximas”, contou.
Instado a responder como é que uma pessoa que vivia naquele local há menos de seis meses se relacionava com o João, que vivia nas imediações do campo Inter Club, Diniz Zua esclareceu que os três conheceram-se no Morro da Luz, mas que já não lhes via juntos há muito tempo.
“Por esta razão ficamos todos surpreendidos quando vimos o João a guiar os homens que queriam raptar os nossos filhos e levá-los a lugar incerto”, rematou.
O nosso interlocutor desabafou que não conseguia acreditar que todos os esforços que fez para pôr fim ao sofrimento do seu filho, fazendo os corredores para matricula-lo na escola 28 de Novembro, foi em vão.
Pelo facto do jovem ter sucumbido antes de ver realizado um dos seus maiores desejos, visto que a pauta com o seu nome só foi publicada alguns dias depois de ter sido assassinado com dois tiros: um na cabeça e outro no peito em direcção ao coração, segundo as imagens que tivemos acesso.

Inquérito na DNIC
Depois de tomarem conhecimento da morte dos seus filhos, os familiares dos dois jovens dirigiram-se à esquadra por onde passaram anteriormente para informarem as autoridades policiais de que os encontraram mortos.
Alguns dias após o funeral, os senhores Avelino da Silva Zua e Diniz Zua endereçaram uma carta ao Comando Geral da Polícia, ao Procurador-Geral da República, à Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) e ao Procurador da República junto da DNIC informando o que se passou.
“A família destes jovens tem o direito de ser informada sobre as causas deste trágico acontecimento. Nesta conformidade e com base na Carta Universal dos Direitos Universais, solicitamos a vossa excelência que se digne em mandar investigar este caso com clareza e dignidade”, lê-se no documento a que O PAIS teve acesso.
Diniz Zua disse que a carta que enviada ao gabinete do Comandante Geral foi encaminhada para o comando provincial de Luanda, que por sua vez remeteu ao procurador junto da DNIC que ordenou ao subinspector Ramires que cuidasse do caso.
“Acontece que já se passaram dois meses e a única informação que recebemos daquele subinspector é que ele convocou os familiares do João para prestarem declarações. O que para nós é muito pouco atendendo a gravidade do assunto”, detalhou Na quarta-feira , o nosso interlocutor foi convocado a comparecer na próxima semana no gabinete do Comandante Geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, para abordarem o assunto.
Apesar de as autoridades policiais negarem a existência de “grupo de extermínio” ou “esquadrão da morte” na corporação, o aparecimento de cadáveres perfurados por balas é frequentemente associado a esta instituição do Estado.
Recorde-se que na altura em que foi chamado a prestar declarações ao Gabinete de Inspecção do Ministério do Interior, o então comandante municipal do Sambizanga, Francisco Ribas, declarou que nunca criou nenhum grupo de extermínio com o objectivo de eliminar os marginais que importunavam a ordem e a tranquilidade dos munícipes.
Esta informação consta do relatório do juiz-presidente da 5ª Secção de Crimes Comuns do Tribunal Provincial de Luanda, Salomão Filipe, leu na altura em que Francisco Ribas foi chamado pela segunda vez para prestar informações sobre o “Caso Frescura”. A nossa equipa de reportagem tentou contactar os familiares do malogrado João e o subinspector da DNIC Ramires, mas não teve sucesso.

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