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quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Táctica de combater a falciformação, na voz do paciente Nelo de Carvalho

Venho por este meio sensibilizar-me com a ADAF, Associação Angolana de Apoio aos Doentes de Anemia Falciforme, porque também sou um dos interessados no problema.

A propósito, já eu sabia através de alguém que Luís Fernando era presidente dessa Associação e que tinha um membro de sua família com problemas a que esse texto se refere. Meu interesse e solidariedade aqui, não é a solução dos milhões de dólares que nesse momento tanta falta faz a Associação, mas sim transmitir o pouco de conhecimento e a informação que ao longo desses 44 anos acumulei. É como paciente, na solidão e na busca implacável de um tratamento, na busca do bem-estar e melhoria, que carrego o drama de ter a doença que estou aqui para compartir informação e quem sabe tentar ajudar. A solução de conviver com a anemia falciforme pode ser simples e barata quando se tem informação e cultura. Pode ser simples também quando não se é egoísta e oportunista, e faz-se da doença um problema dos outros, ou simplesmente de quem tem.
A anemia falciforme não constitui simplesmente um problema daqueles que têm. Ela é uma característica genética que em menor ou maior medida ajudou a sobrevivência da espécie ao longo dos últimos dois milhões de anos de nossa existência, refiro-me a espécie humana. Além disso, poderia ser simples se o Estado Angolano pudesse considerar a mesma doença como um problema social de saúde pública, como um problema que devia se assumir considerando que é uma característica genética da população nativa. E não abandonar a mesma população como fazia a Administração colonial portuguesa, que em pleno século XX e mesmo sabendo do drama, limitava-se a dizer que isso era um problema dos negros ou dos nativos. Os médicos portugueses mal tinham interesse em informar as famílias, país e mães, sobre o padecimento das crianças com relação a essa doença. O desastre e a ignorância é tanta, que no meu caso, minha mãe morreu sem saber nunca de que problema de saúde eu estava afligido.
Querido Luís Fernando, só como conversa, e no afã de querer recordar coisas boas. Dizem que você estudou em Cuba, eu também, em particular na cidade de Santiago de Cuba, que é uma das regiões de Cuba onde por coincidência a população negra chega a ter o maior índice. Para informação dos nossos governantes e autoridades a doença nessa região é bem mapeada pelo sistema de saúde e controlada, atenções especiais a esse tipo de paciente não faltam. É claro que isso foi quase há vinte anos atrás quando eu ainda estava lá, acredito que depois de todo esse tempo as coisas devem ter melhorado. Mas vamos ao que interessa que o objetivo aqui não é a de se fazer propaganda comunista, hoje tão ridicularizados até por gente que um dia assim se considerou.
Como não podia deixar de ser, em minhas andanças e até aventuras, no Brasil tenho consultado alguns médicos, entre eles bons especialistas. E é de conhecimento de todos que quando se trata de doenças incuráveis os pacientes vão atrás das novidades. O que tentarei transmitir é uma novidade simples e barata que talvez possa ser do vosso conhecimento, mas que para mim tem dado bons resultados. Se não for novidade entre os pacientes da ADAF, então o que ficará entre nós é mesmo só a solidariedade. E o clamor que se junta ao vosso pedido de ajuda milionária para conseguirem a remessa do famoso Vk500, que eu pessoalmente nunca usei.
A novidade que trago, que não é uma solução, é um produto de pesquisa e conhecimento científico da comunidade médica Argentina que consiste no consumo diário da Aspirina e o conhecido ácido fólico. A aspirina diária pode ser meio comprimido dependendo da idade do paciente, e nem precisa ser diária, também pode ser um dia sim, um dia não. Quando existir crise, ou inicio de crise, a dose de Aspirina pode ser aumentada num intervalo de seis em seis horas. Para criança pode ser o chamado AS ou aspirina infantil. Nossos médicos em Angola, se bem informados, eles devem ter ou deveriam ter conhecimentos disso.
A aspirina geralmente pode ter para algumas pessoas, é preciso certificar-se para cada caso, contra indicações, principalmente quando a mesma é ingerida diariamente. Aí, sim, seria o caso de consultar-se um médico e ouvirmos o que o mesmo pode opinar. Mas com certeza o que ele não dirá é que o consumo diário da aspirina com o ácido fólico faz mal ao paciente da anemia falciforme. Pode até não exercer os efeitos esperados, mas piorar ou “matar” não vai acontecer. Falo isso por experiência própria e como paciente venho adotando esse procedimento há três anos e tenho melhorado muito. Além disso, minha intenção é só de querer ajudar. Tenho certeza que se
algum membro da ADAF adoptar esse procedimento não vai piorar nem morrer por isso.
Por outro lado, vamos tentar explicar aqui os efeitos da aspirina nesse caso, para que a informação não aparente ser algo transmitida por um asno. O efeito não é de analgésico, mas sim porque o produto químico de que é feito a aspirina, o ácido acetilsalicício, é de exercer um efeito anticoagulante. Ou seja, diminui a viscosidade do sangue facilitando a circulação do mesmo e com grande probabilidade diminuindo a possibilidade de uma crise de anemia falciforme. Nossos médicos angolanos, também, devem saber isso. O ácido fólico só tem a função de aumentar a hemoglobina. É claro que essa dica da aspirina só vale para os casos mais crônicos para pacientes que vivem em crises constantes. Aqueles que padecem da crise de maneira eventual talvez só poderiam fazer uso desse procedimento quando acreditarem que estarão em um estado iminente de a mesma aparecer, durante a mesma crise e se for possível dias depois que a mesma vá desaparecendo, vai depender do estado ou nível da crise do paciente.
Caro Luís Fernando eu herdei não só a anemia falciforme, mas também o velho hábito, a mania “arcaica e dinossaura” dos teóricos marxistas de vincular tudo aos problemas sociais e políticos. É uma praga de minha parte (que confesso), uma cruz que devo carregar eternamente. E por isso vou terminar meu artigo com um tom de provocação. Perdem-se 8 bilhões num país onde as pessoas clamam por todas as formas de dor, fome, doenças, falta de empregos e casas em investimentos obscuros que só Sonangol dá-se o luxo de fazer e sabe fazer. A Sonangol dá-se o luxo até de dar o dízimo a igreja Maná, dízimo com dinheiro público, investimento em empresas falidas e com papéis podres na ex-Metropole (que hoje tornaram-se um bando desempregados e larápios que agora se dão no direito de aproveitarem os lucros do crescimento do nosso país) com o dinheiro de todos os Angolanos. Já que a mesma não sabe mais a onde pôr o dinheiro, esse dinheiro que é do povo e do petróleo de todos, quem sabe eles podem nós escutar. E acreditarem que podemos sucumbir a qualquer instante por falta daquilo que se tornou vital para muitos de nós, o Vk500. Sucumbirmos por carregarmos essa carga genética que hoje se tornou indesejável, mas que constituiu uma das obras mais perfeita da natureza na luta pela sobrevivência da nossa espécie.



* Nelo de Carvalho, o título é de autoria do Tribuna da Kianda e no texto respeitou-se a grafia original brasileira.
Fonte:
WWW.blog.comunidades.net/nelo

1 comentário:

bad disse...

bastante interessante...