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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Reportagem: Hospitais em coma profundo (III)

Américo Boavida, a confusão de sempre

De todas as unidades hospitalar por onde passamos foi no Hospital Américo Boavida (HAB) onde encontramos os pacientes em situação de maior calamidade. Para além do cenário de três crianças a partilharem o mesmo leito, à entrada da sala principal, encontrámos uma senhora deitada no chão a receber soro de hidratação oral.
A falta de profissionais levou os três enfermeiros e dois médicos de serviço a recorrerem à ajuda dos familiares dos pacientes para controlarem a medicação. “Somos apenas três enfermeiros e dois médicos para cuidar de 27 doentes o que não é nada fácil, por isso não temos outra escolha senão solicitar a ajuda aos familiares”.
O relógio já marcava 3horas e 40, quando o nosso interlocutor com ar de cansaço contou que as 19horas o Banco de Urgência estava abarrotado de pacientes provenientes do Rangel. “A maior parte deles ficaram deitados no chão e graças a um trabalho conjunto que desenvolvemos, conseguimos prestar assistência a todos. Transferimos os casos graves para outras unidades hospitalares”.
Enquanto dialogávamos com o enfermeiro, que recusou em revelar o seu nome por não ter sido autorizado a prestar tais declarações, uma das empregadas de limpeza passava com a esfregona próximo do rosto da paciente que se encontrava no chão.
“Quando abriram este Banco tínhamos quatro médicos por cada especialidade, mas como pagavam mal a maior parte deles preferiram trabalhar em clínicas privadas”, revelou.
O nosso interlocutor contou que a antiga direcção do hospital tinha conhecimento da situação, mas não fazia nada para resolver e atirava toda a responsabilidade ao Ministério da Saúde, por não estar preocupada em apressar o processo de recrutamento de pessoal. “O ano passado realizou-se um concurso público, mas as pessoas ainda não foram enquadradas até agora e, segundo o antigo director, o atraso no enquadramento dos técnicos devia-se a questões burocráticas da responsabilidade do Ministério da Administração Pública e Segurança Social”.
Actualmente o Banco de Urgência do HAB conta apenas com quatro salas, das quais uma para os homens (partilhando duas pessoas em cada cama), duas para mulheres e uma para crianças (partilhando três por crianças em cada cama).
Quanto à jovem que estava a receber soro no chão, tivemos que escolher entre salvar a senhora e deixá-la morrer, preferimos salvá-la aplicando-lhe o soro mesmo nessa condição”, rematou o nosso interlocutor.
Na Maternidade Lucrécia Paím constatámos que estavam apenas de serviços três médicos para mais de 30 parturientes. No momento em que passamos por aquele local, os médicos encontravam-se a fazer uma cirurgia numa paciente que estava com dificuldades para dar à luz.
“Olha que há em que só aparecem um ou dois médicos, por isso devemos dar graças à Deus por termos três numa só noite”, rematou a penas enfermeira que, de seguida, parou para atender uma parturiente que chegou no mesmo instante a sentir muitas dores. Por trás da porta do banco de urgência estavam duas cadeiras de roda que são utilizadas para transportar as mulheres grávidas.
Falta vacina anti-rábica
A garantia feita pelo responsável da distribuição de vacinas anti-rábicas de Luanda, Sílvio Alvarenga, em entrevista a o jornal O País na edição anterior, segundo a qual, “há vacinas suficientes contra a raiva em repartições de saúde” não condiz com a realidade.
A nossa equipa de reportagem acompanhou de perto o caso de um jovem que responde pelo nome de Jó Mara, 20 anos, que dirigiu-se ao Hospital Geral de Luanda, depois de ter sido mordido por um cão vadio na esperança de ser vacinado, mas que viu as suas aspirações defraudadas por falta de vacina.
“Morderam-me no domingo e vim para aqui no mesmo dia, mas altura informaram-me que não tinha vacina e por isso teria que voltar no dia seguinte ou dois dias depois”, contou. Dirigindo-se a catalogadora, para saber se podia ser atendido, Jó Mara foi informado que não havia antídoto disponível e que deveria deslocar-se ao hospital da Avô Kumbi, localizado no Golfe II.
Ao ver que o jovem e os seus quatro companheiros manifestavam contra o péssimo serviço prestado perante o repórter, uma das enfermeiras saiu da “toca”, analisou o ferimento e disse ao jovem “tens apenas mais 72 horas para fazeres a vacina, senão vais perder a vida”.

Fins-de-semana sangrentos
Por outro lado, os especialistas de saúde dos hospitais por onde passamos são unânimes em afirmar que os finais de semana são os dias em que se recebem um número elevado de pacientes. “Os tumultos começam na sexta-feira e no sábado por ser o dia em que as pessoas vão as festas e depois de uma desavença ferem-se com garrafas. No domingo a situação tende a acalmar-se e a pediatria é que recebi um número menor de paciente”, frisou o enfermeiro Filipe Pedro.
Já o médico interno cirurgião do Hospital do Prenda, Walter Saidy Matias, defende que para além dos finais de semana, a instituição em que trabalha recebe maior fluxo de doentes nos dias em que se realizam actividades de grande vulto em algumas zonas da cidade.
“Temos recebido também pacientes oriundos de algumas províncias que só chegam à nossa instituição alguns dias depois do acidente. Como é o caso de um grupo de cidadão que sofreram um acidente ao final de semana no Sumbe, mas que só conseguiram ser atendido por nós na segunda-feira”, contou.

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