segunda-feira, 27 de julho de 2009

Reportagem: Hospitais em coma profundo (I)

Nota: A partir desta semana iniciarei a publicar de uma série de reportagem sobre os hospitais públicos de Luanda. Importa referir que reportagem foi publicada de forma parcial no jornal O PAÍS por falta de espaço. As fotos são de autoria do repórter fotográfico Jacinto Figueiredo


Pacientes a receberem soro no chão, corredores adaptados em quarto, falta de médicos e enfermeiros. Este é o quadro real de alguns hospitais público da capital mais cara do mundo



A morte da jovem Mingota Francisco de Sousa na portaria da Televisão Pública de Angola (TPA) depois de ter sido recusada pelos profissionais de saúde do Hospital Américo Boavida (HAB) e a história do cidadão Mateus Maiala, acusado de violar uma paciente no Hospital Geral de Luanda (HGL), demonstraram as debilidades existentes no sistema de saúde do nosso país.
O relógio marcava 22h30 de terça-feira, 21, quando a nossa equipa de reportagem chegou ao hospital dos Cajueiros, localizado no município do Cazenga. Logo à entrada, encontramos familiares de pacientes e seguranças em desavença, pelo facto de os primeiros serem impedidos de entrar, alegadamente, por força do regulamento interno daquela instituição. Contrariamente a turbulência registada no portão, no interior estava tudo calmo, os médicos e enfermeiros faziam as rondas normais avaliando os pacientes em observação.
Após um curto passeio pelo Banco de Urgência fomos recebidos pelo enfermeiro chefe de turno, Filipe Pedro. “Desde as primeiras horas do dia que está tudo calmo, mas pode ser que lá mais para as tantas as coisas pioram”, acautelou.
No relatório semestral do Hospital dos Cajueiros, consta que de Maio a princípio de Julho foram as coisas foram mais difíceis devido à enorme quantidade de pacientes em estado grave que recorreram àquela instituição. “Caso tivessem aparecido naquela altura nenhum de nós teria tempo para falar com vocês. Recebemos maioritariamente casos de crianças com malária e paludismo”, rematou.
Filipe Pedro explicou que o Banco de Urgência só estava a ter uma noite tranquila graças a um trabalho de sensibilização que á direcção do hospital desencadeou junto da população, para que deixassem de recorrer aos postos médicos dos bairros e ao tratamento tradicional de forma a evitar a morte dos seus familiares.
“Normalmente os técnicos de saúde desses locais detém os pacientes para retirarem o máximo de dinheiro possível aos familiares e só depois de verem que o mesmo está gravíssimo é que encaminham para aqui. Na maioria dos casos os doentes já estão com pouca chance de sobreviver”.
Apesar de o hospital estar a beneficiar de obras de ampliação, não havia pacientes deitados no chão, nem em maca. Mas por falta de espaço, as crianças da pediatria partilhavam a três uma cama. Diariamente nascem mais de 20 crianças.
O turno da noite estava constituído por uma equipa constituída por nove enfermeiros na pediatria, dois na medicina, quatro na cirurgia, cinco no bloco operatório e 15 na maternidade (dos quais três da área de internamento).
“Por falta de espaço para internamento, depois de prestarmos os primeiros socorros em casos de medicina transferimos os pacientes para o Hospital Américo Boavida”.
Para dar resposta a falta de energia, a equipa de técnicos de saúde é ainda reforçada por um electricista que entra sempre que necessário em acção com a energia alternativa ligando o gerador. “Em termos de materiais gastáveis e medicamentos estamos bem apetrechados. O que nos preocupa mesmo é a demanda, porque o hospital por enquanto não tem condições suficientes para receber a quantidade de pacientes que ali acorrem”.
No meio do quintalão do hospital, há um jango coberto de palha que é transformado em quarto onde as mulheres que foram levar os seus filhos pernoitam de forma a intervirem sempre que os enfermeiros necessitam da sua ajuda.
“O jango serve praticamente de local onde são transferidas as crianças depois de receberem os primeiros socorros e que ainda estão em observação. Como existe carência de camas, depois de as crianças serem medicadas para não ocuparem-na são evacuadas para este recinto onde ficam com a mãe”.

Parturiente desprezada no Hospital Geral
Inaugurado em 2006 pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, o Banco de Urgência do Hospital Geral de Luanda (HGL) está longe prestar o serviço com a qualidade a que se propunha aquando da sua construção.
O relógio marcava 23h30 quando passamos pelo portão principal desta unidade hospitalar. Por falta de maca, uma senhora era transportada no interior do HGL pelos seus familiares como se de um animal se tratasse. Enquanto um agarrava pelos membros superiores a outra, com evidente cansaço, agarrava os membros inferiores.
No corredor do Banco de Urgência, existia um aglomerado de gente que assistia impávido o episódio. Ao aperceberem-se da presença dos repórteres no local, as enfermeiras procuraram melhorar o atendimento permitido à entrada daqueles que estavam no corredor para as salas de consultas.
“Por favor, ninguém fique aqui. Vão todos lá para fora e deixam as enfermeiras à vontade”, alertou o subchefe da Polícia de Orem Pública que fazia a segurança do local. “Apareçam sempre porque só com a vossa presença melhorou drasticamente o nosso atendimento”, comentou um jovem que levara o seu irmão.
Contrariamente a outra unidade hospitalar por onde passamos, no HGL a madrugada de terça-feira não foi calma. Em menos de 20 registaram a entrada de cinco pacientes que deram entrada em estado grave.
De plantão no Banco de Urgência, a nossa equipa de reportagem acompanhou de perto a chegada da cidadã Catarina Kimangua, moradora do Golfe II. “Ela deu à luz às 21horas, mas só agora é que conseguimos trazê-la ao hospital porque temos poucas condições financeiras para alugar um carro para transporta-la até aqui. O bebé ficou em casa porque está bem e a minha esposa ainda carece de alguns cuidados”, contou Joaquim Sapino (na foto).
Catarina Kimangua foi transportada numa viatura de marca Toyota Starlet, de cor vermelha com a chapa de matrícula LD 87-42 BZ, em companhia do seu esposo e da sua irmã mais velha que fez o parto.
Enquanto os seus acompanhantes retiravam os seus haveres da viatura, Catarina Kimangua acabou por cair em frente de todos. Não conseguia manter-se de pé. Em pânico, Joaquim Sapino levanto a esposa com a ajuda da sua cunhada levo-a para uma das salas.
Questionado se conhecia o número telefónico do Serviço Nacional de Ambulâncias (116), o nosso interlocutor, manifestou total desconhecimento. “Este é o quinto parto que a minha esposa teve e nunca fomos socorridos pelos serviços de ambulância, nem sabia que existia. É grátis?”, questionou.
O chefe do turno não falou à reportagem, alegadamente por não ter autorização da direcção do hospital.

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