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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Incêndio mata cinco crianças no Hoji-Ya-Henda

Cinco crianças com idades compreendidas entre os dois e os 13 anos morreram devido aos graves ferimentos causados por um incêndio ocorrido às 22 horas do passado dia 14 deste mês, no bairro Hoji-Ya-Henda, no município do Cazenga.
As vítimas são Joelson João da Costa, 6 anos, Natalício João Pedro, 2 anos, (irmãos), Vitória Adão Bessa, 10 anos, Amélia Patrícia Pedro, 12 anos, (primas) e Artur João Pedro, vulgo, Guigui, de 13 anos (tio dos quatro).
Os rapazes partilhavam o quarto de uma casa de um piso construída na época colonial, nas proximidades do Cine África, que ardeu.
O fogo foi originado por uma vela acesa por um familiar que estava a revisar a matéria escolar quando a EDEL cortou a energia no seu bairro e que entretanto pereceu também na tragédia.
“Foi por volta das 20 horas quando eles foram dormir, mas como a minha sobrinha tinha uma prova marcada e a EDEL cortou a energia no momento em que ela mais precisava, viu-se obrigada a recorrer à luz da vela, só que aconteceu essa desgraça”, contou o tio das vítimas, Francisco Artur.
Explicou que esta informação foi lhe prestada inicialmente pelo seu sobrinho, identificado por Guigui, que ainda estava acordado no momento em que a prima acendeu a vela.
Os familiares entraram em pânico quando se aperceberam que o quarto estava em chamas e gritaram pedindo ajuda aos vizinhos que não ouviram devido à música alta que saia do Cine, onde decorria uma actividade músico cultural.
“Os moradores desta zona já não prestam muita atenção ao barulho que vem do exterior das suas residências, porque acreditam que todo o som proveniente da rua deriva dos espectáculos realizados no Cine. Neste dia, as coisas não foram diferentes”, especificou Francisco Artur.
A primeira pessoa que ouviu o clamor das crianças foi a avó que pernoitava no quarto ao lado, e que não hesitou em tentar socorrê-las. Ao abrir a porta foi surpreendida pela pressão das chamas que a empurraram para trás.
Segundo o nosso interlocutor, a anciã caiu, desmaiou e só despertou quando estava a ser levada para o hospital. Sofreu algumas queimaduras ligeiras.
Depois de se aperceberem que o único indivíduo que podia salvá-los não estava em condições de o fazer, as crianças refugiaram-se na varanda do quarto e continuaram a pedir ajuda.
Mas o fogo alastrou-se até à varanda, obrigando os meninos a pendurarem se nas grades ao mesmo tempo que continuavam a gritar por socorro.
Os familiares só se aperceberam do que se passava graças ao pedido de ajuda endereçado ao senhor Artur João Pedro, pai da malograda Amélia.
“A minha cunhada ouviu uma das crianças a gritar: socorro Artur, socorro.
Vamos morrer. E alertou o seu esposo do que se passava”, contou o nosso interlocutor.
Ao aperceber-se do que se passava, o pai da Amélia subiu pelas paredes para tentar retirar as crianças mas enfrentou inúmeras dificuldades por causa dos gradeamentos existentes na casa. Enquanto isso, os vizinhos tentavam, sem êxito, ligar para os Bombeiros, para a Polícia e para os Serviços de Emergência para pedirem ajuda.
“Ligamos para estes organismos a solicitar que viessem com os seus equipamentos para arrombarem os ferros, mas não apareceram. A senhora do 113 pediu que aguardássemos, porque encaminharia a nossa petição para a esquadra mais próxima. O que não terá acontecido porque não apareceu ninguém”, garantiu o familiar.

As mortes
Para retirar as crianças, Artur João Pedro, pai da malograda Amélia Patrícia Pedro, rompeu as janelas superiores da casa que funcionavam como respirador, passou pelo fogo e transportou-as para um lugar seguro.
Uma viatura particular levou os meninos para o Hospital Neves Bendinha (HNB). O corajoso familiar sofreu queimaduras do Iº grau.
O nosso interlocutor contou que, após terem sido retirados do quarto, o malogrado Guigi foi à residência de um amigo pedir ajuda, onde depois foram buscá-lo para o encaminharem ao hospital.
“Ficamos admirados com a forma como ele agiu. A única coisa que passou pela cabeça dele, após sair da zona de perigo, foi ir a correr para a casa deste seu amigo pedir ajuda”, lembrou emocionado Francisco Artur.
Entre os cincos pacientes, os irmãos Joelson João da Costa e Natalício João Pedro foram os primeiros a não resistirem às queimaduras e acabaram por sucumbir nas primeiras horas de segunda-feira, 16. Após realizarem o seu funeral na quarta-feira, 18, os familiares foram informados que a pequena Amélia Patrícia Pedro também tinha acabado de falecer.
Um dia depois do funeral de Amélia, a senhora Isabel Adão António deslocou-se ao HNB para se inteirar do estado de saúde da sua filha Vitória Adão Bessa. No local, foi informada que a sua filha não resistira às queimaduras do IIIº grau.
O adolescente Guigui foi o único dos sobreviventes que estava a recuperar gradualmente. Francisco Artur visitou-o horas antes do velório da pequena Vitória, em companhia da sua irmã, a mãe da vítima. Constataram que aparentava sinais de melhoria.
“Não sei como descrever essa morte porque na quinta-feira conseguimos falar com ele. Questionei-o ainda sobre se reconhecia quem estava à sua frente e ele mencionou os nossos nomes”, contou o tio, que usava óculos escuros para esconder as lágrimas que teimavam em cair. Para mostrar aos seus visitantes que estava a melhorar, Gugui recebeu-os de pé, olhou, segundo o nosso interlocutor, fixamente para a sua progenitora e disse-lhe que a amava muito.
“Ele disse literalmente o seguinte: és tão querida e te amo muito mamã. Isso é o que mais nos surpreende porque ninguém imaginava que estava a se despedir”, lembrou o tio. Depois de sair do hospital, Francisco Artur deslocou-se à casa mortuária para agilizarem o funeral. Ao retirar o cadáver da menina da gaveta da morgue recebeu por telemóvel a informação de que não devia aguardar, porque o seu sobrinho Guigui também acabara de falecer e, possivelmente, seriam enterrados juntos.
No sábado, 21, a equipa de reportagem do Tribuna da Kianda deslocou-se ao local e encontrou os familiares e amigos quando saíam do funeral das duas últimas vítimas. No único compartimento da casa devorada pelas chamas, encontravam-se espalhados no meio dos escombros folhas de cadernos e de um livro de língua portuguesa da 5ª classe.

Cuidados médicos em causa
Francisco Artur acusa a equipa médica que estava de serviço naquele dia de ter sido negligente, por não medicar imediatamente os seus familiares: “É bom que se diga isso para ver se mudamos alguma coisa neste país. Houve um certo desleixo por parte dos técnicos de saúde desse hospital, porque quando chegamos não havia nenhum médico de serviço. Só enfermeiros”, frisou.
Segundo ele, os seus ente-queridos morreram porque só foram consultados por um médico, cujo nome não conseguiu dizer, às 10horas da manhã do dia seguinte: “Acho que isso é extremamente grave por se tratar do banco de urgência do único hospital especializado em queimaduras do país. Temos que parar de dizer que está tudo bem, enquanto existem algumas coisas que estão muito mal”, comentou Francisco Artur. O parente das malogradas crianças realçou que “não falo isso por estar ofendido pela perda dos meus descendentes, mas para ajudar o Governo a tomar precauções de modo a evitar que coisas do género continuem a acontecer”.
Na lista de reclamações apresentadas pelos familiares das vítimas, consta ainda que os enfermeiros não explicaram pessoalmente o estado de saúde dos pacientes e o anúncio do falecimento dos rapazes foi feito através de uma lista que colocaram na parede com os seus nomes. Uma fonte do Hospital Neves Bendinha, que preferiu não ser identificada, contrariou as informações avançadas pelo tio, porque existe uma equipa de plantão, que é reforçada por vários enfermeiros especializados em queimaduras.
“Temos uma equipa de enfermeiros que recebe constantemente formação de refrescamento e que estão capacitados para lidar com qualquer tipo de queimadura. Por isso, não acredito que os pacientes deram entrada neste hospital à meia-noite de sábado e só foram atendidos às 10 horas do dia seguinte”, protestou a fonte.
Bombeiros limpam as mãos O porta-voz do Corpo dos Bombeiros, Faustino Sebastião, disse a O PAÍS, que é possível que os seus colegas não tenham recebido o telefonema das pessoas que tentaram contactá-los, porque a única linha de atendimento que a sua corporação tem encontrava-se congestionada.
“A nossa rede tinha este problema, mas já está ultrapassado. A Angola Telecom e o Departamento de Informática do Ministério do Interior rubricaram um acordo que permitiu a entrada em funcionamento, nesta terça-feira, de mais cinco linhas que reforçam as três até então existentes”, explicou Faustino Alberto. Até ao final deste mês, por altura do aniversário dos Serviços dos Bombeiros, o número de cabines de atendimento ao público poderá aumentar para 16. As três até então existentes, recebiam diariamente cerca de 2.000 pedidos de ajuda, mas deste número apenas cinco eram verdadeiros. “Temos estado a tentar consciencializar a população para não brincarem com este serviço, porque enquanto uns ficam num lado da linha a brincar, os outros estão aflitos a tentar pedir ajuda, mas não conseguem”, rematou.

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