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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Zé Maria acusado de ser mandante da morte de Eurídice

Zé Maria, ex-governador de Luanda
O ex-governador provincial de Luanda, José (Zé) Maria Ferraz dos Santos, é acusado de ter sido o mandante do assassinato da jovem Eurídice Bernarda de Oliveira Cândido “Dodó”, 30 anos, com quem tem uma filha de três anos, ocorrido no dia 28 de Janeiro do ano passado.
O crime foi praticado por um grupo de três indivíduos supostamente contratados por um dos irmãos do ex-governador, que responde pelo nome de Florindo Ferraz dos Santos, vulgo Filó, a seu pedido, em troca de vinte e cinco mil dólares e cinco casas no projecto habitacional do Panguila.
Está informação foi revelada pelo juiz-presidente da 4º Secção de Crimes Comuns do Tribunal Provincial de Luanda, Adriano Baptista, ao proceder à leitura da pronúncia durante a audiência de julgamento realizada na pretérita sexta-feira, 30.
Para convencer o Florentino dos Santos a satisfazer o seu pedido, Zé Maria ter-lhe-á contado que a sua ex-namorada estava a criar-lhe alguns embaraços que poderiam prejudicar a sua carreira política, numa altura em que se encontrava em franca ascensão, tendo em conta que o Presidente da República lhe conferira a difícil missão de dirigir à capital do país.
Diante dos argumentos acima apresentados, o espírito de irmandade e a elevada quantia monetária que estava em jogo, Florentino dos Santos, não terá pensado duas vezes em aceitar o pedido e deslocou-se ao município do Cazenga, local onde viveu muitos anos, e contratou o seu amigo Carlos Pedro Missinda para recrutar os presumíveis executores.
Alguns dias depois, os dois amigos terão voltado a encontrar-se algures no bairro do Kikolo e, segundo a pronúncia, Florindo entregou a Carlos Missinda uma fotografia de Eurídce Cândido para que as fizesse chegar aos supostos assassinos.
Neste mesmo encontro, o mandatado do antigo governador de Luanda terá sugerido ao seu interlocutor que orientasse os membros da equipa de execução, nomeadamente, Miguel Matowana, Matomena António e um outro identificado apenas por Missinda, que procurassem um kimbandeiro para os fazer tratar. Porque só assim, conseguiriam assassinar a jovem sem grandes dificuldades, atendendo ao facto dele ser daquelas pessoas que frequentavam constantemente casas de feitiçaria.
De modo a não defraudar as expectativas do seu cliente e receberem os bens materiais que estavam em jogo, os supostos meliantes dirigiram-se à residência de um curandeiro de nacionalidade congolesa, muito afamado no bairro do Kikolo, onde terão cumprido com um ritual de velas pretas acesas, que serviram para invocar os espíritos, seguido de banho de água preparada com produtos tradicionais, adquiridos pelo valor de cinco mil Kwanzas entregue por eles dias antes.
O juiz-presidente revelou ainda que o curandeiro foi deportado para o seu país pelos oficiais dos Serviços de Migração e Estrangeiro por se encontrar em Angola de forma ilegal. O que terá sido um dos motivos que levaram a representante do Ministério Público a não arrolá-lo no processo como declarante ou testemunha.
Confiantes no efeito do trabalho do curandeiro, o suposto quarteto de malfeitores ter-se-á dirigido, numa viatura com a chapa de matrícula falsa, furtada em casa de uma cidadã por um dos integrantes da quadrilha alguns meses antes, ao local onde a presumivelmente a vítima se encontrava.
Segundo Adriano Baptista, um deles foi dando conta de todos os passos ao cidadão Florentino dos Santos, como o comprovam os estratos dos telefones de ambos, fornecidos por uma das operadoras de telefonia móvel que operam no nosso país.
“Ao verem a jovem a parquear a sua viatura de marca Mercedes no seu local habitual, debaixo do prédio onde residia, um dos indivíduos desceu da viatura, apontou-lhe a arma à cabeça e efectuou um disparo”, especificou o juiz.
Com o rosto parcialmente desfeito devido à forma como o tiro entrou e saiu na nuca, Eurídce Cândido caiu ao chão, ao lado da sua viatura, e os marginais meteram-se em fuga, acreditando que não estavam a deixar nenhuma pista que os ligaria ao crime.
O juiz-presidente declarou ainda que naquele mesmo dia existia fraca movimentação de peões e de automobilistas pela rua Comandante Eurico, por causa das chuvas fracas que assolaram então a capital do país.
 
Pagamentos e suposta queima de arquivo
Depois de terem cumprido a operação com bastante êxito, o intermediário terá comunicado imediatamente o resultado a Florentino dos Santos e este, por sua vez, marcou um encontro e entregou-lhe parte dos valores acordados, isto é, dez mil dólares, com a promessa de que receberiam o resto na segunda-feira. Durante o referido encontro o mesmo ter-se-á inteirado sobre o estado em que ficou a vítima e se existia alguma possibilidade dela se salvar, caso alguém a socorresse.
Presume-se que na segunda-feira seguinte, o mandatado de Zé Maria voltou a encontrar-se com Carlos Missinda para entregar-lhe os 15 mil dólares que faltava e selarem o compromisso de que não poderia contar a ninguém o corrido no dia 28 de Janeiro.
Quanto às cinco casas inicialmente anunciada, na pronúncia não consta se as mesmas foram entregues e qual terá sido a justificativa apresentada por Florentino dos Santos aos demais.
Segundo informações prestadas pelos peritos da Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC), aquando da realização de uma conferência de imprensa para anunciar a detenção de dois dos integrantes da quadrilha, eles fugiram para o interior do país tão logo se aperceberam que estavam entre os suspeitos.
O jovem Missinda, o presumível autor do disparo mortal, foi surpreendido algures na província do Moxico, onde se encontrava escondido das forças policiais, tendo o seu comparsa sido detido na província da Huíla, onde acreditavam, na altura, estar também os restantes.
De acordo com a pronúncia, depois de algum tempo, o cidadão Florentino voltou a procurar o seu amigo, mas desta vez com o objectivo de pedir-lhe que o levasse ao quimbandeiro que os havia tratado, porque pretendia desfazer um feitiço que recebeu no exterior do país.
Já no local e num clima de conversa amena, Carlos Missinda questionou o seu companheiro de longa data sobre a razão de ter procurado os seus préstimos para pôr fim à vida de Eurídice Cândido, e este ter-lhe-á respondido tê-lo feito a pedido do seu irmão José Maria dos Santos, que até então exercia o cargo de governador da cidade de Luanda.
Ao tomar conhecimento do cargo que ocupa o “real” mandante deste crime hediondo, fazendo fé nas informações que recebeu, Carlos Missinda terá procurado o Filó e exigido o pagamento de 30 mil dólares e uma casa no projecto habitacional do Panguila em troca do seu silêncio. Caso contrário, iria denunciá-los às autoridades policiais.
Com o passar do tempo e ao ver que as suas exigências estavam longe de serem satisfeitas, presumindo estar a correr perigo de vida optou por contar os detalhes da morte de Eurídice Cândido. Assegurou que caso alguma coisa lhe acontecesse, os seus autores seriam o então governador e o seu irmão. Algum tempo depois, Carlos Missinda deu entrada no Hospital do Prenda doente, em estado grave e acabou por sucumbir.
Para aclarar o que terá causado a sua morte, a procuradora Emenajada Verdeira requereu ao Tribunal que solicite à direcção do referido hospital que disponibilize o relatório médico ou o resultado da autópsia a que o malogrado foi submetido. O requerimento foi aceite.
 
 
Perfil da vítima
Ao fazer a leitura da pronúncia, o juiz-presidente descreveu a ex-funcionária da direcção de Créditos a Particulares e Negócios do Banco de Fomento Angola (BFA), Eurídice Cândido, de ter sido uma pessoa ambiciosa que gostava muito de dinheiro.
Ela é descrita como tendo sido bastante violenta, tendo chegado ao ponto de agredir fisicamente a senhora Teresa Cristina dos Santos e Santos, esposa do então governador, e uma jovem com quem ele mantinha uma relação amorosa.
De acordo com o juiz, a malograda afirmou por diversas vezes que o seu ex-companheiro tinha alguém a vigiá-la e sustentava esta acusação com o facto de ele ter telefonado para ela, diversas vezes e descrito com precisão a forma como estava vestida, mesmo não se encontrando por perto.

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